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domingo, março 13, 2011

Dia de estrela

Amanhã é o Dia Nacional da Poesia. Entre Quintana e Cecília, Drummond e Vinícius, quem escolher? Como esquecer Augusto dos Anjos? Indico a quem ainda não conhece Bruna Lombardi, Martha Medeiros, o saudoso João Cabral de Melo Neto, Castro Alves, Carlos Pena Filho, Bilac, e a lista segue, infinita, porque - amante ardoroso ou leitor desavisado - todo mundo conhece alguma poesia.



Lembrança de Morrer

Álvares de Azevedo

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!

sexta-feira, março 19, 2010

Ah, Martha...

E se tivesse sido diferente?

Martha Medeiros

Quem leu o perturbador “Precisamos falar sobre Kevin” sabe que sua autora, Lionel Shriver, é craque em esmiuçar as razões psicológicas que motivam todos os nossos atos, mesmo os mais tolos, e em demonstrar o quanto esses atos geram consequências previsíveis e imprevisíveis. Em seu novo livro, “O mundo pós-aniversário”, ela conta a história de Irina, uma mulher instalada num sólido casamento de dez anos, que um dia sente um incontrolável desejo de beijar outro homem.

Pra complicar, esse homem é um amigo do casal. A partir daí, a autora desmembra o livro em duas histórias que correm paralelas: a vida de Irina caso consumasse seu impulso erótico e a vida de Irina caso reprimisse seu desejo. A autora poderia ter se contentado em escrever sobre o poder transformador de um primeiro beijo em alguém, mas foi mais inteligente e abordou também o poder transformador de mantermos tudo como está. É comum pensarmos que, ao ficarmos parados no mesmo lugar, sem agir, sem mudar nada, estamos assegurando um destino tranquilo. Engessados na mesma situação, é como se estivéssemos protegidos de qualquer ossível ebulição que nos inquiete.

Sssshh. Quietos.

Ninguém se mexe pra não acordar o demônio.

Não deixa de ser uma estratégia, mas falta combinar com o resto da população. As pessoas que nos cercam sempre interferirão no nosso destino. Se dermos uma guinada brusca ou permanecermos na rotina, tanto faz: o mundo se encarregará de trocar as peças de lugar nesse imenso tabuleiro chamado dia a dia.

Ao fazer algo socialmente condenável (como ser casada e dar um beijo em outro homem, pra dar o exemplo do livro), tudo poderá acontecer — inclusive nada. Você poderá se apaixonar, abandonar seu marido e viver uma tórrida história de amor, e essa história de amor se revelar uma furada e você se arrepender, e tentar reatar com seu marido, que a essa altura já estará apaixonado pela vizinha. Ou você beijará e, em vez de iniciar um romance tórrido, voltará pra casa bocejando e nada, nadinha será alterado.

Foi só uma pequena estupidez momentânea e sem consequências. Mas das consequências de continuar viva você não escapa.

Esse 2010 promete ser bom: ano do tigre no horóscopo chinês, ano de vênus no horóscopo ocidental. Quem entende do assunto diz que teremos um aquecimento global do tipo que ninguém tem nada contra. Emoções
calientes.

Mas adianta fazer planos? Seja qual for o caminho que optarmos seguir, haverá altos e baixos. E isso é tudo. Se fizermos uma auditoria em nossas vidas, em algum momento questionaremos: — E se eu tivesse feito diferente? O diferente teria sido melhor e teria sido pior.

Então o jeito é curtir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajetória, alegrar-se e sofrer, acreditar e descrer, que lá adiante tudo se justificará, tudo dará certo. Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada.


(REVISTA O GLOBO - 28/02/2010)

sexta-feira, maio 29, 2009

Por e-mail.

O contrário do Amor

Martha Medeiros

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

domingo, março 22, 2009

Lembrando de Martha de Medeiros...

não espero de você o que já me foi dado
nem você conseguiria porque não é assim
tudo tão cronometrado

eu não espero que você me proteja
depois de todos os medos que eu disse não ter
você não teria como saber

não espero de você um abraço
que foi desfeito faz tempo
você não faz idéia quanto

eu não espero de você
nem mais um dia de lamento
nem um momento como a gente já teve

seja breve, não me escreva
se sobrar algum afeto
seja discreto e me esqueça

Sobrevivendo

Nem sempre a gente vive. Em certos dias, sobrevive. Precisamos de manutenção, como a casa, os carros e a geladeira. De vez em quando, precisamos reiniciar o sistema, limpar o HD, fazer back-up de alguns arquivos que estão ocupando espaço e que usamos uma vez por ano somente.

Ocasionalmente, damos uma repaginada. Escolhemos formas mais fáceis de fazer certas coisas e percebemos que certos objetos à nossa volta perderam o encanto ou sua função em nossa vida. É aí que limpamos o guarda-roupa e doamos um monte de peças que só ocupam espaço, remexemos na papelada que se acumula pelas gavetas (ou nos organizadores de bagunça), arquivamos as contas pagas e descartamos as notas do supermercado dos meses passados. Nessas épocas, descobrimos que há anos aqueles brincos caíram de moda ou estão desparelhados, e você sem espaço no 'porta-jóias'.

(Você tem jóias, anônima leitora? As minhas peças prediletas do momento são as bijuterias que comprei da Suzi. Ninguém tem iguais! Pra quê ouro e diamantes? Eu gosto é do design, não do custo do que está pendurado em mim).

Eu sou ordeira, já fui organizada e mantenho uma certa rotina em minha vida. Me desfaço de roupas que não uso, independente de estarem velhas ou não. Troco com amigas que me repassam, por sua vez, outras peças que estão mofando no guarda-roupa delas.
Mas não empresto mais nada: dinheiro, livros, filmes ou as revistas do Batman. Como diz Martha Medeiros:

'a ninguém ofereço meu vinho branco
não empresto minhas roupas mais caras
e são só meus os meus segredos'

domingo, novembro 16, 2008

Hoje eu estou de estrela

Vou processar a CBS pelo meu atual vício. Desde que os produtores de CSI assinaram com Linkin Park que essa música não me sai da cabeça:

"Leave Out All The Rest"
Linkin Park

I dreamed I was missing/ You were so scared/ But no one would listen/ Cause no one else cared/ After my dreaming/ I woke with this fear/ What am I leaving/ When I'm done here/So if you're asking me/ I want you to know

[Chorus]
When my time comes/ Forget the wrong that I've done/ Help me leave behind some/ Reasons to be missed/ And don't resent me/ And when you're feeling empty/ Keep me in your memory/ Leave out all the rest/ Leave out all the rest
[End Chorus]

Don't be afraid/ I've taken my beating/ I've shared what I made/ I'm strong on the surface/Not all the way through/ I've never been perfect/ But neither have you/ So if you're asking me/ I want you to know

[Chorus]

Forgetting/All the hurt inside/ You've learned to hide so well/Pretending/ Someone else can come and save me from myself/ I can't be who you are

[Chorus]

Forgetting/ All the hurt inside/ You've learned to hide so well/ Pretending/ Someone else can come and save me from myself/ I can't be who you areI can't be who you are

E não é nada pessoal. Na verdade, o episódio inteiro foi baseado na letra da música: É Grissom, sem tirar nem pôr (a tradução está aqui). O episódio foi ao ar na semana passada e a bendita música não pára de tocar no meu 'Winamp mental', como diz Vicky.

(aliás, a culpa é de 'Grissom's Girl', que me indicou a promo do episódio.)

***
Porque eu tenho um lado hobbit, presente pra você, anônimo leitor:




Esses são os jardins da casa de Claude Monet, em Giverny, França. Pra quem ama as pinturas do artista que criou o impressionismo, é um prazer saber que os jardins e a casa foram preservados e são ponto de visitação turística até hoje. Por dentro, a casa também foi conservada com os objetos originais.


É nisso que dá ter insônia e assistir documentário na TV Cultura: você arranja mais um item para sua lista de sonhos improváveis (suspiro). O mais difícil foi escolher o que postar. As imagens são impressionantes. É só comparar com os quadros.

***
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só

(Martha Medeiros)

***

Lembra de Morre Lentamente do Neruda? Olha uma versão brasileira sobre o tema:

sim, é verdade, estou feliz
mas isso não significa
que não deva olha pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora

sim, a princípio, nada me falta
mas não preciso em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar meus desejos
por outros que não lembro agora

sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras

sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação
a mim a santa paz não devora

(Martha Medeiros)

***

Aliás, estou aderindo ao Projeto Deusa- Amar a si própria, da Carla San.

***

Vou ali colher uns lírios no meu jardim (eu sei que girassóis são uma paixão, mas flor predileta mesmo, é lírio). Eu sabia que um dia acertava mão para plantar algo!

quarta-feira, outubro 01, 2008

Saudade

As sem-razões do Amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Tem dia que me bate uma saudade... Saudade de gente que nunca me viu, gente que morreu sem saber da minha existência, mas que marcou minha vida. Drummond foi assim. Neruda, Quintana, Vinícius (sinta a intimidade!). É por isso que eu ainda vou encontrar o Veríssimo ( O Luís Fernando, bem entendido), a Martha Medeiros, a Bruna Lombardi, o Dr Dráuzio e chamar todo mundo prum almoço qualquer dia, devidamente assistida pela Fal Azevedo (que entende de escrita e cozinha) e pela Cláudia Letti (que entende de escrita e amor). Querendo, pode aparecer por aqui, anônimo leitor, pois será bem-vindo!

domingo, julho 20, 2008

Do Spooky Society

Só podia ser de:
"Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas... permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me faça rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tempo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que eu digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?)
Seja mais forte que eu e menos altruista!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços,gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade......
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os...
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem seja contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faças uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca : boba, rouca, boca...
Goste de música e de sexo.
Goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.
Quero ver você nervoso, inquieto,
tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
... me faça massagens nas costas.
Fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte!
Se nada disso funcionar... experimente me amar!!!" (Martha Medeiros)