Soneto de aniversário
Vinicius de Moraes
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece
Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens
domingo, dezembro 15, 2013
Doda, Feliz Aniversário!
Marcadores:
citações,
flores,
fotografia,
imagens,
minha família de coração,
Poesia,
Vinícius de Moraes
domingo, março 13, 2011
Dia de estrela
Amanhã é o Dia Nacional da Poesia. Entre Quintana e Cecília, Drummond e Vinícius, quem escolher? Como esquecer Augusto dos Anjos? Indico a quem ainda não conhece Bruna Lombardi, Martha Medeiros, o saudoso João Cabral de Melo Neto, Castro Alves, Carlos Pena Filho, Bilac, e a lista segue, infinita, porque - amante ardoroso ou leitor desavisado - todo mundo conhece alguma poesia.

Lembrança de Morrer
Álvares de Azevedo
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!

Lembrança de Morrer
Álvares de Azevedo
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
Marcadores:
citações,
Dia de Estrela,
escritores,
fotografia,
imagens,
Lua,
Martha Medeiros,
Poesia,
ser leitora,
Vinícius de Moraes
quinta-feira, dezembro 30, 2010
De lua

Acende uma lua no céu
Toquinho/Vinícius de Moraes
Acende uma lua no céu
E muitas estrelas no olhar
E deixa-te linda e sem véu
Envolta num brando dossel de luar
Semeia de flores teu chão
E abre a janela aos perfumes do ar
E esquece tua porta entreaberta
Porque na hora certa
Verás teu poeta surgir
E entrar e abraçar-te chorando
E amar-te até quando
Tiver que partir
Fontes: letra (viniciusdemoraes.com.br), vídeo (Youtube)
Marcadores:
citações,
estrelas,
letras de música,
Lua,
música,
outros blogs,
Poesia,
Vinícius de Moraes
Falando em Vinícius...

Suave amiga
'E eu pensarei: Que bom, nem é preciso respirar' (Cecília Meireles)
Não fui ao teu enterro, Suave Amiga.
Os enterros, eliminei-os de minha vida para que possa lembrar vivos os meus mortos. Quando os vejo morrer, ou lhes velo os despojos, ou os acompanho em seu último e inútil passeio, eles se vão pouco a pouco fazendo imparticipantes; deixam-se frios e reservados como hóspedes de uma longínqua Marienbad. Sim, Suave Amiga, muito esnobes ficam os mortos para meu gosto. Prefiro pensá-los em viagem, capazes de inesperadamente surgir em minha imaginação, como sucediam no meu tempo; vivos itinerantes, sempre partindo e sempre de volta. Porque, assim como eu, todos os meus amigos viajam muito.
Em algum lugar andarás agora, Suave Amiga, algum Tibete ou algum Nepal, a te moveres entre templos, levada pelo ímã do teu olhar de prata. Em algum lugar estará acontecendo o teu silêncio, a tua sombra, a tua dúvida. Ora deves parar em doce postura para ouvir de algum velho monge fórmulas mágicas capazes de imobilizar o tempo, dar voz às rosas, transformar tudo em distância; ora ensimesmar-te diante de horizontes infinitos até a evaporação total da carne feita bruma, feita nuvem, feitá pólen lunar: bruma, nuvem, pólen lunar habitados por imensos olhos verdilúcidos a caminharem para a grande treva fluida esgarçada de véus brancos.
Suave Amiga, que saudade antiga... Saudade de quando entravas na sala de mesas toscas e, à tua chegada, nós nos iluminávamos; e o teu olhar fazia tudo verde, mas não verde-que-te-quero-verde: verde-conta, verde-cecília, cristal verde. Era Manuel Bandeira, cujo beijo deves ainda guardar na face fria; era Ribeiro Couto, que nunca mais vai voltar de Belgrado e era eu nos meus 28 anos, investindo com a lança do Silêncio contra os cavaleiros do Som, em combate cinematográfico desigual; éramos nós, teus poetas, e eras tu, poeta nosso, poeta-nuvem, poeta-gaivota a pescar na névoa de teu mar os peixes luminosos de teus versos. Era outro dia, era outra fábula. De mesmo só havia uma grande vontade de chorar.
Suave Amiga, que cantiga triste... Que triste história a não contar mais nunca, essa do tempo que passa, do teu vulto avançando na penumbra da sala para logo se perder, da luz de teu sorriso e da calma dos teus olhos sem paz... Não importa onde estejas agora, nos caminhos do Sinai tangendo estrelas, ou a dormir num aquário no fundo de um lago, a graça de teu vulto acompanha nossos passos. À noite, em silêncio, pensamos em ti, ó poeta-pássaro, e sentimos o roçagar inaudível de tuas asas. Um dia, quando menos esperares, estaremos a teu lado. E eu sei que, inclinando graciosamente o corpo sobre o abismo, vigiarás nossa escalada e, no último lance, nos darás a mão. E tu serás para nós, teus poetas, a adorável cicerone desse mundo sem som onde hoje vagas ao sabor da inexistência de tudo, na imensa disponibilidade de quem não tem para onde ir. E nós talvez possamos escrever no grande quadro-negro incolor do espaço, como alunos aplicados, as primeiras palavras inexistentes da poesia que não foi.
Marcadores:
citações,
Literatura,
saudade,
ser bipolar,
ser Técnica em Economia Doméstica,
solidão,
Vinícius de Moraes
Mais Vinícius
Mas, eu estava procurando outro texto do Vinícius, quando acabei encontrando a poesia pra Mr. Buster. Graças à internet, é possível ler praticamente tudo que o poetinha escreveu, em poesia, em prosa, em letras de música. É só acessar algo como o viniciusdemoreaes.com.br.

Da solidão
Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Da solidão
Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.
Marcadores:
escritores,
flores,
fotografia,
imagens,
Literatura,
ser leitora,
solidão,
Vinícius de Moraes
Quase 30 anos depois...
...reencontrei a poesia de Vinícius que li uma única vez e me encantei (pra variar, aconteceu na Escola Doméstica). Acho que foi naquele instante que aprendi que não existe apenas amor entre pessoas, e que existe mais de um modo de amar um país além do 'ser patriota', tão enfatizado em minha infância trans-ditadura. É fantástico perceber que, tirando um detalhe ou outro, tudo se encaixa nos dias de hoje. Isso é escrever bem, anônimo leitor. Por isso:

Olhe aqui, Mr. Buster *
* Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione.
Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
Fonte: Vinícius de Moraes.com.br

Olhe aqui, Mr. Buster *
* Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione.
Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
Fonte: Vinícius de Moraes.com.br
sábado, dezembro 18, 2010
Saudade do poetinha
O dia da criação
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Créditos: Foto 1 - Lago Michigan, Foto 2: Achados de Decoração, Foto 3 - Nascer do sol na África do Sul, by William Bonner.
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Créditos: Foto 1 - Lago Michigan, Foto 2: Achados de Decoração, Foto 3 - Nascer do sol na África do Sul, by William Bonner.
Marcadores:
citações,
escritores,
fotografia,
imagens,
lugares do mundo,
Meus Williams,
Poesia,
saudade,
Vinícius de Moraes,
William Bonner
domingo, maio 09, 2010
Quem me dera ser amada assim.
DECÁLOGO DO POETA PARA A MULHER AMADA
Vinícius de Moraes
"1 - Amar a mulher amada sobre todas as coisas.
2 - Não tomar o seu santo nome em vão,
e não brincar em serviço.
3 - Guardar todos os domingos para ela
e fazer-lhes milhões de festas.
4 - Ser um pouco pai dela e ela um pouco a mãe da gente.
5 - Só matá-la de amor, ou por amor.
6 - Pecar o mais possível contra a sua castidade.
7 - Nunca furtar para dar-lhe coisas.
Furtar é um crime vil
e a mulher que ama precisa respeitar o seu homem.
8 - Ser absolutamente discreto em tudo
que se relacione à mulher em geral.
9 - Fazer toda a força possível para não desejar
a mulher do próximo.
O preço do amor é uma eterna vigilância.
10 - Não cobiçar as coisas alheias,
pois à mulher que ama, basta-lhe o amor do ser amado".
***
Acho que toda mulher já desejou ter sido merecedora da atenção de Vinícius. Se existiu um homem capaz de fazer da sensualidade um arte, esse foi o poetinha. Nao estou fala.ndo de lubricidade. Falo de dispor de todos os sentidos pra dar toda a atenção possível à mulher em questão naquele instante em que ele estava com a escolhida. Eu não fujo à regra. Foi assim que saiu a crônica dessa semana:
Vinícius e eu
29.04.10
Preciso confessar: Vinícius é o único relacionamento aberto que eu tive e tenho, e continua valendo a pena. Acho que é ele o tal homem da minha vida. A verdade é que temos um longo caso de amor. Nos conhecemos no ‘Livro de Sonetos’, na minha infância. Não sei como os sonetos me caíram nas mãos, mas eu não era tão criança assim e provavelmente não entendi os poemas mais quentes mesmo. Ficaram-me os sonetos de fidelidade, de separação, de intimidade, de contrição e ficamos flertando por anos, eu lendo e relendo o livro, que pertencia à minha mãe, até que uma ‘antologia poética’ me caiu nas mãos por inteiro acaso, na casa de alguém. Eu tive a antologia em mãos por uma noite apenas, porque o dono estava lendo e ia viajar com o livro. Mal dormi, e valeu cada instante porque Vinícius é um homem que mantém uma mulher acordada, mas ocupada e satisfeita. No dia seguinte, tivemos que nos despedir.
Apenas uma noite. Eu me senti roubada. Eu o queria de volta, pra dias e noites, e a eternidade, mas por alguma razão, nos desencontrávamos. Outros surgiram em minha vida, e me distraíram do meu primeiro amor. Eu soube que Vinícius era especial desde que ele me fez rir com ‘Não comerei da alface a verde pétala’. Independente de qualquer coisa, um homem tem que ser capaz de fazer rir uma mulher.
Aqui e ali, ele reaparecia em minha vida, me oferecendo mais: no repertório do coral da faculdade, numa edição comemorativa da ‘Veja’, nas primeiras palavras que meu primeiro namorado disse ao trocarmos nosso primeiro beijo. Os anos se passaram, eu me apaixonei, me decepcionei, me enganei, e o poeta ali, firme, à minha espera. Foi preciso tempo, mas eu entendi que o que tínhamos era muito especial e eu precisava dar o passo seguinte, conhecê-lo melhor e ele a mim, saber o que nos atraía, o que nos era comum e o que não era.
Quando resolvi dar uma chance, Vinícius não estava mais disponível. Eu não morava mais com minha mãe, e morria de saudades do livro de sonetos. Pedir emprestado não servia, eu o queria inteiramente pra mim porque livro de poesia tem que ser sublinhado, de leve, com lápis grafite, pro próximo dono poder apagar e sublinhar as frases dele. Se possível, a gente até data a poesia, pra saber por que gostou tanto daquilo. Livro de poesia emprestado é como suspirar pelo namorado da amiga: ou você rouba de uma vez, ou fica sofrendo por ele, até ter o seu. Nunca roubei o namorado de ninguém, como poderia roubar Vinícius de outra pessoa?
O interessante, é que nunca comprei um livro de Vinícius. Entendi desde o início que tinha que merecê-lo. A oportunidade veio na forma de uma dor de dente. Acabei na sala de cirurgia, extraindo os quatro dentes do siso de uma vez, e foi quando uma amiga veio me visitar, com outra ‘Antologia Poética’ pra ocupar meu tempo de repouso. Até a dedicatória era a de alguém que sabia o valor daquilo pra mim. Vinícius era finalmente meu!
Mal a amiga saiu, nós nos agarramos. Literalmente. Jantamos juntos e quando o dia seguinte amanheceu, ele continuava em meus braços. Essa antologia não tem ‘Quatro elementos’, um dos meus prediletos, mas afinal, não existe amor sem um defeitinho. Quando matamos as saudades de uma vida inteira, coloquei um marcador na página de ‘Receita de mulher’ e pedi tempo a Vinícius, pra entender o que se passava. Era muito intenso. Ele entendeu. O poetinha passou a dividir a prateleira com Bruna Lombardi, e mais tarde, com Mário Quintana e Fernando Pessoa. Sem ressentimentos. De fato, ele nunca foi possessivo. Me deixa livre pra escolher, e eu sempre volto pra ele, mesmo sabendo que terei que dividi-lo com outras. Ainda assim, é impossível pra mim ler apenas um soneto dele. Eu acabo folheando o livro à procura de outros. No entanto, não fui à procura do resto da obra dele. Seria assumir de vez nossa relação e eu fiquei esperando que ele tomasse uma atitude a esse respeito.
No início da semana, soube que Vinícius está na internet. A reportagem com a notícia nem havia terminado, e eu já estava à procura de uma poesia que li há mais de 25 anos e ainda não reencontrei. Essa é uma boa desculpa pra eu passar horas na frente da tela, lendo Vinícius. É a desculpa perfeita, na verdade. Porque nos últimos anos, um tal de Shakespeare anda se metendo entre nós, e já conseguiu espaço na prateleira. Já existem mais marcadores nos sonetos dele do que na antologia de Vinícius. Pela primeira vez, eu vi o poetinha aborrecido. Ele vem me lembrando que, aconteça o que acontecer, ele será o primeiro em minha vida, o mais fiel e, se eu permitir, estará sempre comigo, não importa quantas vezes eu me encante por mais alguém. Acho que foi por isso que ele resolveu se apresentar em 15 diferentes obras de uma vez, e ainda fez o favor de aparecer na crônica da semana. Está jogando pesado, e com razão.
É hora de reconhecer: nunca seremos simplesmente ‘Vinícius e eu’. Serei sempre uma das mulheres do poeta, me sentindo muito realizada por isso, porque qualquer mulher, qualquer uma, se sente linda e desejável ao ler Vinícius. O homem nos ensina a ser bonita, mesmo se na gente não tem o que se olhar. Ele não apenas cozinha, mas faz da preparação da feijoada uma poesia. Sim, ele bebe e é namorador como ninguém, mas ama a todas sem qualquer distinção. Ele aceita que eu tenha outros amores, e me apóia quando um deles acaba. Tudo que ele pede em troca é minha atenção exclusiva quando estamos juntos, porque ele faz o mesmo por mim. É pra esse instante que vivo, porque quando estou com Vinícius somos somente nós e tudo é possível
Vinícius de Moraes
"1 - Amar a mulher amada sobre todas as coisas.
2 - Não tomar o seu santo nome em vão,
e não brincar em serviço.
3 - Guardar todos os domingos para ela
e fazer-lhes milhões de festas.
4 - Ser um pouco pai dela e ela um pouco a mãe da gente.
5 - Só matá-la de amor, ou por amor.
6 - Pecar o mais possível contra a sua castidade.
7 - Nunca furtar para dar-lhe coisas.
Furtar é um crime vil
e a mulher que ama precisa respeitar o seu homem.
8 - Ser absolutamente discreto em tudo
que se relacione à mulher em geral.
9 - Fazer toda a força possível para não desejar
a mulher do próximo.
O preço do amor é uma eterna vigilância.
10 - Não cobiçar as coisas alheias,
pois à mulher que ama, basta-lhe o amor do ser amado".
***
Acho que toda mulher já desejou ter sido merecedora da atenção de Vinícius. Se existiu um homem capaz de fazer da sensualidade um arte, esse foi o poetinha. Nao estou fala.ndo de lubricidade. Falo de dispor de todos os sentidos pra dar toda a atenção possível à mulher em questão naquele instante em que ele estava com a escolhida. Eu não fujo à regra. Foi assim que saiu a crônica dessa semana:
Vinícius e eu
29.04.10
Preciso confessar: Vinícius é o único relacionamento aberto que eu tive e tenho, e continua valendo a pena. Acho que é ele o tal homem da minha vida. A verdade é que temos um longo caso de amor. Nos conhecemos no ‘Livro de Sonetos’, na minha infância. Não sei como os sonetos me caíram nas mãos, mas eu não era tão criança assim e provavelmente não entendi os poemas mais quentes mesmo. Ficaram-me os sonetos de fidelidade, de separação, de intimidade, de contrição e ficamos flertando por anos, eu lendo e relendo o livro, que pertencia à minha mãe, até que uma ‘antologia poética’ me caiu nas mãos por inteiro acaso, na casa de alguém. Eu tive a antologia em mãos por uma noite apenas, porque o dono estava lendo e ia viajar com o livro. Mal dormi, e valeu cada instante porque Vinícius é um homem que mantém uma mulher acordada, mas ocupada e satisfeita. No dia seguinte, tivemos que nos despedir.
Apenas uma noite. Eu me senti roubada. Eu o queria de volta, pra dias e noites, e a eternidade, mas por alguma razão, nos desencontrávamos. Outros surgiram em minha vida, e me distraíram do meu primeiro amor. Eu soube que Vinícius era especial desde que ele me fez rir com ‘Não comerei da alface a verde pétala’. Independente de qualquer coisa, um homem tem que ser capaz de fazer rir uma mulher.
Aqui e ali, ele reaparecia em minha vida, me oferecendo mais: no repertório do coral da faculdade, numa edição comemorativa da ‘Veja’, nas primeiras palavras que meu primeiro namorado disse ao trocarmos nosso primeiro beijo. Os anos se passaram, eu me apaixonei, me decepcionei, me enganei, e o poeta ali, firme, à minha espera. Foi preciso tempo, mas eu entendi que o que tínhamos era muito especial e eu precisava dar o passo seguinte, conhecê-lo melhor e ele a mim, saber o que nos atraía, o que nos era comum e o que não era.
Quando resolvi dar uma chance, Vinícius não estava mais disponível. Eu não morava mais com minha mãe, e morria de saudades do livro de sonetos. Pedir emprestado não servia, eu o queria inteiramente pra mim porque livro de poesia tem que ser sublinhado, de leve, com lápis grafite, pro próximo dono poder apagar e sublinhar as frases dele. Se possível, a gente até data a poesia, pra saber por que gostou tanto daquilo. Livro de poesia emprestado é como suspirar pelo namorado da amiga: ou você rouba de uma vez, ou fica sofrendo por ele, até ter o seu. Nunca roubei o namorado de ninguém, como poderia roubar Vinícius de outra pessoa?
O interessante, é que nunca comprei um livro de Vinícius. Entendi desde o início que tinha que merecê-lo. A oportunidade veio na forma de uma dor de dente. Acabei na sala de cirurgia, extraindo os quatro dentes do siso de uma vez, e foi quando uma amiga veio me visitar, com outra ‘Antologia Poética’ pra ocupar meu tempo de repouso. Até a dedicatória era a de alguém que sabia o valor daquilo pra mim. Vinícius era finalmente meu!
Mal a amiga saiu, nós nos agarramos. Literalmente. Jantamos juntos e quando o dia seguinte amanheceu, ele continuava em meus braços. Essa antologia não tem ‘Quatro elementos’, um dos meus prediletos, mas afinal, não existe amor sem um defeitinho. Quando matamos as saudades de uma vida inteira, coloquei um marcador na página de ‘Receita de mulher’ e pedi tempo a Vinícius, pra entender o que se passava. Era muito intenso. Ele entendeu. O poetinha passou a dividir a prateleira com Bruna Lombardi, e mais tarde, com Mário Quintana e Fernando Pessoa. Sem ressentimentos. De fato, ele nunca foi possessivo. Me deixa livre pra escolher, e eu sempre volto pra ele, mesmo sabendo que terei que dividi-lo com outras. Ainda assim, é impossível pra mim ler apenas um soneto dele. Eu acabo folheando o livro à procura de outros. No entanto, não fui à procura do resto da obra dele. Seria assumir de vez nossa relação e eu fiquei esperando que ele tomasse uma atitude a esse respeito.
No início da semana, soube que Vinícius está na internet. A reportagem com a notícia nem havia terminado, e eu já estava à procura de uma poesia que li há mais de 25 anos e ainda não reencontrei. Essa é uma boa desculpa pra eu passar horas na frente da tela, lendo Vinícius. É a desculpa perfeita, na verdade. Porque nos últimos anos, um tal de Shakespeare anda se metendo entre nós, e já conseguiu espaço na prateleira. Já existem mais marcadores nos sonetos dele do que na antologia de Vinícius. Pela primeira vez, eu vi o poetinha aborrecido. Ele vem me lembrando que, aconteça o que acontecer, ele será o primeiro em minha vida, o mais fiel e, se eu permitir, estará sempre comigo, não importa quantas vezes eu me encante por mais alguém. Acho que foi por isso que ele resolveu se apresentar em 15 diferentes obras de uma vez, e ainda fez o favor de aparecer na crônica da semana. Está jogando pesado, e com razão.
É hora de reconhecer: nunca seremos simplesmente ‘Vinícius e eu’. Serei sempre uma das mulheres do poeta, me sentindo muito realizada por isso, porque qualquer mulher, qualquer uma, se sente linda e desejável ao ler Vinícius. O homem nos ensina a ser bonita, mesmo se na gente não tem o que se olhar. Ele não apenas cozinha, mas faz da preparação da feijoada uma poesia. Sim, ele bebe e é namorador como ninguém, mas ama a todas sem qualquer distinção. Ele aceita que eu tenha outros amores, e me apóia quando um deles acaba. Tudo que ele pede em troca é minha atenção exclusiva quando estamos juntos, porque ele faz o mesmo por mim. É pra esse instante que vivo, porque quando estou com Vinícius somos somente nós e tudo é possível
Marcadores:
citações,
meus escritos,
Meus Williams,
Poesia,
Shakespeare,
Vinícius de Moraes
quarta-feira, maio 05, 2010
Definindo o que é o bastante
19.03.10
Há uma máxima do Tao que diz que ‘quando sabemos o que é o bastante, sempre haverá o bastante’. Não importa em que área de sua vida você aplica esse princípio. É sempre importante definir uma meta pra evitar a insatisfação comum à maioria das pessoas. Nem sempre é fácil explicar esse princípio, como nem sempre é fácil explicar muita coisa na vida. A chave está em saber segurar a atenção da outra pessoa seja como for. Conseguir, e manter, a atenção de alguém é um dom.
Alguns textos capturam nossa atenção. Muitas vezes, o tema abordado nem é tão importante, mas o modo como o autor apresenta a idéia nos prende de tal modo que a gente não consegue parar de ler. Aconteceu comigo essa semana, em ‘O que faz valer a pena’, de João Paulo Cuenca, uma crônica sobre os instantes que dão sentido e fazem a vida ser uma experiência válida. Eu não conhecia Cuenca, mas graças ao Google, encontrei o ‘Blog de Anotações’ e li mais textos dele. Não conheço metade ou mais dos exemplos citados por ele como momentos que fazem a vida valer a pena. Não importa. O que ele cita pode ser facilmente substituído pelo que eu ou você consideramos como elementos que dão colorido à história de nossas vidas. O que interessa é o modo como o autor defende cada item na imensa lista que ele descreve. Se eu conhecesse a maioria dos momentos e pessoas citadas, provavelmente concordaria com Cuenca, mas ele me ganhou nas primeiras linhas quando citou ‘o Didi Mocó nos anos 80 vestido de Maria Betânia cantando Teresinha do Chico Buarque.' Embora eu não imagine cena melhor pra descrever o trabalho de Renato Aragão (aquela é uma das cenas que fez minha infância digna de ser vivida), certamente toda pessoa tem alguma cena inesquecível pra colocar como substituto à altura.
A lista torna-se excepcional quando Cuenca começa a falar das mulheres. De repente, a gente acha que está relendo ‘Receita de Mulher’, do Vinícius, ou alguma poesia de Bruna Lombardi. Quando você termina, ou a) a gente se sente o máximo por ser mulher, embora não esteja entre as citadas, ou b) dá vontade de ser homem. Note que o autor não está fazendo uma apologia da mulher, ou defendendo que ser heterossexual é o máximo. Não. Ele reconhece nas mulheres, ou em certas representantes do gênero, um dos motivos pra gente continuar investindo na vida. Lendo outras crônicas de Cuenca, a gente percebe que as mulheres são um tema recorrente nos textos dele, o que confirma o motivo de ocuparem mais ou menos metade da lista (e da crônica).
Ao longo dos anos, meu entusiasmo pela vida cedeu, e muito. Já não me anima tanto a perspectiva de ver um filme novo, e a visão de um livro desconhecido já não me deixa ansiosa pra saber o que está escrito em suas páginas. Em parte, isso se dá porque eu já vivi o bastante pra ter minha própria lista de momentos que valem a pena, e muitas vezes prefiro revivê-los a me arriscar perdendo tempo com uma novidade que pode ou não ter seu mérito. Muitos desses momentos são cenas de filmes (ou filmes inteiros), trechos de livros e poesias, e provavelmente minha lista tem mais livros que músicas, mais filmes que cenas de minha própria vida. O essencial é que cada um desses momentos existiu porque alguém o partilhou comigo. Mesmo o passeio solitário num fim de tarde valeu a pena porque eu me permiti apreciá-lo.
A crônica de Cuenca se destaca porque ele dá seu ponto de vista, mas não tenta me convencer que o que ele diz é o certo. Ele não fica citando a opinião alheia, não se esconde atrás do nome de outro autor pra justificar o fato de gostar de A ou B. Ele gosta de Woody Allen e pronto. Ele não quer saber se você leu Nabokov. Pra ele, o primeiro parágrafo de Lolita é o que é. Ele está se lixando se eu sei quem é Keith Jarrett, se já vi algum filme de Fellini, se estive no Orsay ou no Prado, ou se concordo com minha professora de Literatura do 2º grau, que achava que Roberto Carlos é lugar-comum. Não importa. Ele definiu pra si o que é o bastante, e o único critério é se faz valer a pena. E isso basta.
***
Estou começando a curtir as crônicas, mesmo com o espaço reduzido pra escrever. Quem sabe eu não aprendo a ser menos prolixa?
Há uma máxima do Tao que diz que ‘quando sabemos o que é o bastante, sempre haverá o bastante’. Não importa em que área de sua vida você aplica esse princípio. É sempre importante definir uma meta pra evitar a insatisfação comum à maioria das pessoas. Nem sempre é fácil explicar esse princípio, como nem sempre é fácil explicar muita coisa na vida. A chave está em saber segurar a atenção da outra pessoa seja como for. Conseguir, e manter, a atenção de alguém é um dom.
Alguns textos capturam nossa atenção. Muitas vezes, o tema abordado nem é tão importante, mas o modo como o autor apresenta a idéia nos prende de tal modo que a gente não consegue parar de ler. Aconteceu comigo essa semana, em ‘O que faz valer a pena’, de João Paulo Cuenca, uma crônica sobre os instantes que dão sentido e fazem a vida ser uma experiência válida. Eu não conhecia Cuenca, mas graças ao Google, encontrei o ‘Blog de Anotações’ e li mais textos dele. Não conheço metade ou mais dos exemplos citados por ele como momentos que fazem a vida valer a pena. Não importa. O que ele cita pode ser facilmente substituído pelo que eu ou você consideramos como elementos que dão colorido à história de nossas vidas. O que interessa é o modo como o autor defende cada item na imensa lista que ele descreve. Se eu conhecesse a maioria dos momentos e pessoas citadas, provavelmente concordaria com Cuenca, mas ele me ganhou nas primeiras linhas quando citou ‘o Didi Mocó nos anos 80 vestido de Maria Betânia cantando Teresinha do Chico Buarque.' Embora eu não imagine cena melhor pra descrever o trabalho de Renato Aragão (aquela é uma das cenas que fez minha infância digna de ser vivida), certamente toda pessoa tem alguma cena inesquecível pra colocar como substituto à altura.
A lista torna-se excepcional quando Cuenca começa a falar das mulheres. De repente, a gente acha que está relendo ‘Receita de Mulher’, do Vinícius, ou alguma poesia de Bruna Lombardi. Quando você termina, ou a) a gente se sente o máximo por ser mulher, embora não esteja entre as citadas, ou b) dá vontade de ser homem. Note que o autor não está fazendo uma apologia da mulher, ou defendendo que ser heterossexual é o máximo. Não. Ele reconhece nas mulheres, ou em certas representantes do gênero, um dos motivos pra gente continuar investindo na vida. Lendo outras crônicas de Cuenca, a gente percebe que as mulheres são um tema recorrente nos textos dele, o que confirma o motivo de ocuparem mais ou menos metade da lista (e da crônica).
Ao longo dos anos, meu entusiasmo pela vida cedeu, e muito. Já não me anima tanto a perspectiva de ver um filme novo, e a visão de um livro desconhecido já não me deixa ansiosa pra saber o que está escrito em suas páginas. Em parte, isso se dá porque eu já vivi o bastante pra ter minha própria lista de momentos que valem a pena, e muitas vezes prefiro revivê-los a me arriscar perdendo tempo com uma novidade que pode ou não ter seu mérito. Muitos desses momentos são cenas de filmes (ou filmes inteiros), trechos de livros e poesias, e provavelmente minha lista tem mais livros que músicas, mais filmes que cenas de minha própria vida. O essencial é que cada um desses momentos existiu porque alguém o partilhou comigo. Mesmo o passeio solitário num fim de tarde valeu a pena porque eu me permiti apreciá-lo.
A crônica de Cuenca se destaca porque ele dá seu ponto de vista, mas não tenta me convencer que o que ele diz é o certo. Ele não fica citando a opinião alheia, não se esconde atrás do nome de outro autor pra justificar o fato de gostar de A ou B. Ele gosta de Woody Allen e pronto. Ele não quer saber se você leu Nabokov. Pra ele, o primeiro parágrafo de Lolita é o que é. Ele está se lixando se eu sei quem é Keith Jarrett, se já vi algum filme de Fellini, se estive no Orsay ou no Prado, ou se concordo com minha professora de Literatura do 2º grau, que achava que Roberto Carlos é lugar-comum. Não importa. Ele definiu pra si o que é o bastante, e o único critério é se faz valer a pena. E isso basta.
***
Estou começando a curtir as crônicas, mesmo com o espaço reduzido pra escrever. Quem sabe eu não aprendo a ser menos prolixa?
Marcadores:
Cinema,
escritores,
Literatura,
meus escritos,
outros blogs,
ser escritora,
Vinícius de Moraes
segunda-feira, abril 26, 2010
Dia de Estrela
Dia 23 de abril foi Dia do Livro e dos Direitos do Autor, e eu não me esqueci, mas só hoje eu encontrei uma notícia à altura da data. Embora só em 2050 as obras de Vinícius de Moraes serão de domínio público, a Biblioteca Brasiliana disponibilizou 15 obras pra leitura na internet!!!!!
A notícia é do JN, e você pode acessar a obra de Vinícius disponibilizada pela Brasiliana aqui.
A notícia é do JN, e você pode acessar a obra de Vinícius disponibilizada pela Brasiliana aqui.
Marcadores:
citações,
Dia de Estrela,
escritores,
Poesia,
TV,
Vinícius de Moraes
quinta-feira, março 05, 2009
Porque deu saudade de Vinícius
Sonnet on Fidelity
Above all, to my love I"ll be attentive
First, and always with such ardor, so much
That even when confronted by this great
Enchantment my thougts ascend to more delight.
I want to live through in each vain moment
And in its honor I must spread my song
And laugh with my delight and shed my tears
When she is sad or when she is contented.
And thus, when afterward comes looking for me
Who knows what death, anxiety of the living,
Who knows what loneliness, end of the loving
I could say to myself of the love (I had):
Let it not be immortal, since it is flame
But let it be infinite while it lasts.
By Vinicius de Moraes. Translated by Ashley Brown, in "An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry", Wesleyan Univertsity Press
Above all, to my love I"ll be attentive
First, and always with such ardor, so much
That even when confronted by this great
Enchantment my thougts ascend to more delight.
I want to live through in each vain moment
And in its honor I must spread my song
And laugh with my delight and shed my tears
When she is sad or when she is contented.
And thus, when afterward comes looking for me
Who knows what death, anxiety of the living,
Who knows what loneliness, end of the loving
I could say to myself of the love (I had):
Let it not be immortal, since it is flame
But let it be infinite while it lasts.
By Vinicius de Moraes. Translated by Ashley Brown, in "An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry", Wesleyan Univertsity Press
Marcadores:
citações,
Poesia,
saudade,
simplesmente ser,
Vinícius de Moraes
quarta-feira, outubro 22, 2008
É nisso que dá reler o antigo blog
Não Comerei da Alface a Verde Pétala
Vinicius de Moraes
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor;
nasci Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
(Iludia-se o poeta. Num tempo em que as coisas andaram meio pretas, ele teve que se enquadrar direitinho e andou comendo legumes na água e sal como qualquer outro).
Extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", Livraria José Olympio Editora S. A.- Rio de Janeiro, 1984, pág. 84.
Melhor que essa, só a receita dele pra fazer feijoada, que eu li há muito tempo, num livro de culinária. Pode ir lendo a poesia e executando as instruções ao pé da letra que sai uma feijoada! Queria que fosse assim com 'Receita de Mulher' também (alguém lembra? 'As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental...').
Vinicius de Moraes
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor;
nasci Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
(Iludia-se o poeta. Num tempo em que as coisas andaram meio pretas, ele teve que se enquadrar direitinho e andou comendo legumes na água e sal como qualquer outro).
Extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", Livraria José Olympio Editora S. A.- Rio de Janeiro, 1984, pág. 84.
Melhor que essa, só a receita dele pra fazer feijoada, que eu li há muito tempo, num livro de culinária. Pode ir lendo a poesia e executando as instruções ao pé da letra que sai uma feijoada! Queria que fosse assim com 'Receita de Mulher' também (alguém lembra? 'As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental...').
Marcadores:
citações,
Poesia,
Vinícius de Moraes
segunda-feira, outubro 13, 2008
Por quê?
É dia de São Eduardo. Rei da Inglaterra, com ‘temperamento manso e generoso (nunca uma indelicadeza ou uma palavra de repreensão ou um gesto de ira nem para com os mais humildes súditos)’. A descrição é de ‘Um Santo para cada dia’, a quem interessar possa.
Porque um Eduardo me honrou com seu temperamento também manso e generoso: muito obrigada.
***
Heroes Of Sand
(Angra )
Sealing light/Nothing to see/Like a miracle life/Starts with the pain/Forever this will be
Close my eyes/Thunders won't cease/Crawling down to the edge/I break down and weep/Tears on the river deep/Oh! Back to the sea
Shout loud/Moving ahead/Ride the horses of justice/Virtues of men, yawns!
Down and out/Losing my head/Like a dream you're returning/Back from the dead-awake!/Shadows will fade some day
All the heroes go down/Shed their blood on the land/Dreaming somehow/The divine will now stand./Heroes go down/With their hearts in their hands/Building, their castles on the sand
Haunted by the heavy clouds/Thunder is tearing away/Howling like a mountain wolf/Warriors are leading the way
All the heroes go down/Shed their blood on the land/Dreaming somehow/The divine will now stand./Heroes go down/With their hearts in their hands/Building, their castles on the sand
on the sand
Porque desde que ouvi (há quase duas semanas!) não sai da minha cabeça e do Windows Media Player. Tradução para quem quiser.
***
Soneto de Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Porque Vinícius anda aqui por esses dias e esse foi um dos primeiros de uma longa lista de sonetos que tocaram meu coração. E olha que a lista inclui quase todos os sonetos do Bardo!
PS: Presente de uma pessoa maravilhosa, a ‘Antologia Poética’ de Vinícius só não tem ‘Quatro Elementos’ senão seria um livro perfeito. Me acompanha (acompanha-me, dá no mesmo, seus puristas) desde um pós-operatório (daí a intenção do presente) e, de fato, a dedicatória me enternece até hoje. ‘E que a dor de dente não seja infinita enquanto dure!’ sempre me faz sorrir a cada vez que leio.
***
Respondendo
Cardápio do almoço com os poetas (e poetisas):
- Aperitivos: variedade de poemas satíricos e políticos.
- Entrada: suspiros por inatingíveis objetos do desejo humano (a criatura amada, por exemplo).
- Primeiro prato: odes a criações perfeitas da Natureza (sol, lua, estrelas e animais de estimação)
- 'Piéce de resistance': poemas de amor correspondido acompanhados de pequenas porções de saudade.
- Sobremesa: poemas eróticos (a essa altura, todos já estarão bêbados mesmo).
- Café: declarações e resoluções de vida (ou morte).
- Conhaque: Profundas meditações sobre a existência e finitude humana, , ao final das quais todos se despedirão, acreditando que mais um dia é possível (se existe por quem ou pelo que almejar).
Porque eu me diverti tanto planejando o menu que resolvi compartilhar. Ai, deu saudade de 'Um Alfabeto para Gourmets'. Vou cobrar de volta senão... adeus livro. Sou ciumentíssima com meus livros, raramente empresto e esse está com minha mãe. Mas eu vou cobrar assim mesmo.
***
Só porque hoje é segunda e há a perspectiva de uma semana inteira pela frente.
PS: Sabe aquele meu lugar no mundo? Acaba de sair daqui uma pequenina com dor de cabeça há nove dias e com febre. É como andar de bicicleta (ainda que o equilíbrio falte de vez em quando): onde é que eu guardei as fichas do povo? Cadê as duas calculadoras da minha maleta? Como é mesmo o nome-fantasia do xarope de dipirona com sabor de chocolate?
A mãe da menina me conhece há aaaanos. Ela sabe que é só falta de prática. Eu tenho certeza disso.
Porque um Eduardo me honrou com seu temperamento também manso e generoso: muito obrigada.
***
Heroes Of Sand
(Angra )
Sealing light/Nothing to see/Like a miracle life/Starts with the pain/Forever this will be
Close my eyes/Thunders won't cease/Crawling down to the edge/I break down and weep/Tears on the river deep/Oh! Back to the sea
Shout loud/Moving ahead/Ride the horses of justice/Virtues of men, yawns!
Down and out/Losing my head/Like a dream you're returning/Back from the dead-awake!/Shadows will fade some day
All the heroes go down/Shed their blood on the land/Dreaming somehow/The divine will now stand./Heroes go down/With their hearts in their hands/Building, their castles on the sand
Haunted by the heavy clouds/Thunder is tearing away/Howling like a mountain wolf/Warriors are leading the way
All the heroes go down/Shed their blood on the land/Dreaming somehow/The divine will now stand./Heroes go down/With their hearts in their hands/Building, their castles on the sand
on the sand
Porque desde que ouvi (há quase duas semanas!) não sai da minha cabeça e do Windows Media Player. Tradução para quem quiser.
***
Soneto de Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Porque Vinícius anda aqui por esses dias e esse foi um dos primeiros de uma longa lista de sonetos que tocaram meu coração. E olha que a lista inclui quase todos os sonetos do Bardo!
PS: Presente de uma pessoa maravilhosa, a ‘Antologia Poética’ de Vinícius só não tem ‘Quatro Elementos’ senão seria um livro perfeito. Me acompanha (acompanha-me, dá no mesmo, seus puristas) desde um pós-operatório (daí a intenção do presente) e, de fato, a dedicatória me enternece até hoje. ‘E que a dor de dente não seja infinita enquanto dure!’ sempre me faz sorrir a cada vez que leio.
***
Respondendo
Cardápio do almoço com os poetas (e poetisas):
- Aperitivos: variedade de poemas satíricos e políticos.
- Entrada: suspiros por inatingíveis objetos do desejo humano (a criatura amada, por exemplo).
- Primeiro prato: odes a criações perfeitas da Natureza (sol, lua, estrelas e animais de estimação)
- 'Piéce de resistance': poemas de amor correspondido acompanhados de pequenas porções de saudade.
- Sobremesa: poemas eróticos (a essa altura, todos já estarão bêbados mesmo).
- Café: declarações e resoluções de vida (ou morte).
- Conhaque: Profundas meditações sobre a existência e finitude humana, , ao final das quais todos se despedirão, acreditando que mais um dia é possível (se existe por quem ou pelo que almejar).
Porque eu me diverti tanto planejando o menu que resolvi compartilhar. Ai, deu saudade de 'Um Alfabeto para Gourmets'. Vou cobrar de volta senão... adeus livro. Sou ciumentíssima com meus livros, raramente empresto e esse está com minha mãe. Mas eu vou cobrar assim mesmo.
***
Só porque hoje é segunda e há a perspectiva de uma semana inteira pela frente.
PS: Sabe aquele meu lugar no mundo? Acaba de sair daqui uma pequenina com dor de cabeça há nove dias e com febre. É como andar de bicicleta (ainda que o equilíbrio falte de vez em quando): onde é que eu guardei as fichas do povo? Cadê as duas calculadoras da minha maleta? Como é mesmo o nome-fantasia do xarope de dipirona com sabor de chocolate?
A mãe da menina me conhece há aaaanos. Ela sabe que é só falta de prática. Eu tenho certeza disso.
Marcadores:
escritores,
Fé,
Fernanda,
letras de música,
Literatura,
meu ex,
minha família de coração,
minha mãe,
música,
Poesia,
religião,
ser médica,
Vinícius de Moraes
domingo, outubro 05, 2008
Só porque...
... Grissom's Girl indicou 'Casa Caliente' (Fic GSR NC-17) e até agora, eis o que encontrei de mais belo:
Soneto - X V I I
Pablo Neruda
NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Não sei, acho que vou fazer outro almoço, esse só pros poetas falecidos. Neruda, Drummond, Vinícius, Blake, Shakespeare, e. e. cummings... Apareça, anônimo leitor!
Soneto - X V I I
Pablo Neruda
NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Não sei, acho que vou fazer outro almoço, esse só pros poetas falecidos. Neruda, Drummond, Vinícius, Blake, Shakespeare, e. e. cummings... Apareça, anônimo leitor!
Marcadores:
citações,
CSI,
escritores,
Meus Williams,
Poesia,
Séries de TV,
Shakespeare,
TV,
Vinícius de Moraes
quarta-feira, outubro 01, 2008
Saudade
As sem-razões do Amor
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Tem dia que me bate uma saudade... Saudade de gente que nunca me viu, gente que morreu sem saber da minha existência, mas que marcou minha vida. Drummond foi assim. Neruda, Quintana, Vinícius (sinta a intimidade!). É por isso que eu ainda vou encontrar o Veríssimo ( O Luís Fernando, bem entendido), a Martha Medeiros, a Bruna Lombardi, o Dr Dráuzio e chamar todo mundo prum almoço qualquer dia, devidamente assistida pela Fal Azevedo (que entende de escrita e cozinha) e pela Cláudia Letti (que entende de escrita e amor). Querendo, pode aparecer por aqui, anônimo leitor, pois será bem-vindo!
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Tem dia que me bate uma saudade... Saudade de gente que nunca me viu, gente que morreu sem saber da minha existência, mas que marcou minha vida. Drummond foi assim. Neruda, Quintana, Vinícius (sinta a intimidade!). É por isso que eu ainda vou encontrar o Veríssimo ( O Luís Fernando, bem entendido), a Martha Medeiros, a Bruna Lombardi, o Dr Dráuzio e chamar todo mundo prum almoço qualquer dia, devidamente assistida pela Fal Azevedo (que entende de escrita e cozinha) e pela Cláudia Letti (que entende de escrita e amor). Querendo, pode aparecer por aqui, anônimo leitor, pois será bem-vindo!
Marcadores:
citações,
escritores,
Fal Azevedo,
Martha Medeiros,
médicos escritores,
Poesia,
saudade,
Veríssimo,
Vinícius de Moraes
Assinar:
Postagens (Atom)
