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sábado, outubro 13, 2012

Remando contra a maré


Não basta não querer algo, você também tem que saber o que quer. Se eu não quero isso, tenho que decidir se quero aquilo, ou isto, ou mesmo aquilo mais além. Em quatro anos não consegui e, como não gosto de gente dando pitaco na minha vida, foram poucos a quem eu contei sobre a situação. Nenhum disse que eu estava errada, algum me desejaram sorte sinceramente, outros disseram que queriam que eu fosse feliz, mas que sentiam pela perda na área.

Como eu precisava de capital, eu continuei por um tempo, minha saúde nunca colaborou, minha certeza nunca foi total (a bipolaridade não ajuda em nada a tomar decisões, some-se à variação de humor do ciclo mentrual e adeus tudo). A única decisão que consegui tomar foi sair do serviço público. Teria sido ótimo se, quando os paciente começaram a vir regularmente, eu não caísse doente.

Embora eu esteja de castigo em casa há dois meses, as mesmas pessoas que lamentavam a perda na área, insistem que esse é meu caminho. Eu não insisto com todos, mas todas as doenças que eu tive e me afastaram de trabalho, têm caráter psicosomático. Logo, pra eu ser feliz, eu tenho que me afastar da Medicina. Passei quase um ano sem trabalhar e fiquei muito bem de saúde, obrigada. Não que eu seja preguiçosa, eu só quero fazer outra coisa. O problema é que eu não sei o que quero e, quando descobrir, terei que trabalhar em algo pra me manter até me firmar na minha nova profissão.

Nem vou pensar na questão 'convencer as pessoas que larguei Medicina pra fazer' seja lá o que for. Eu já remo contra a maré todo dia.

quinta-feira, setembro 27, 2012

quarta-feira, novembro 16, 2011

Dia de Estrela


O Dia Internacional para a Tolerância foi instituído pela ONU como sendo o dia 16 de Novembro de cada ano, em reconhecimento à Declaração de Paris, assinada no dia 12 deste mês, em 1995. Na Declaração de Paris, os estados participantes reafirmaram a "fé nos Direitos Humanos fundamentais" e ainda na dignidade e valor da pessoa humana, além de poupar sucessivas gerações das guerras por questões culturais, para tanto devendo ser incentivada a prática da tolerância, a convivência pacífica entre os povos vizinhos.

Foi então evocado o dia 16 de Novembro, quando da assinatura da constituição da UNESCO em 1945. Remetia, ainda, à Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma:

1. Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (Artigo 18);
2. Todos têm direito à liberdade de opinião e expressão (Artigo 19)
3. A educação deve promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações, grupos raciais e religiosos (Artigo 26).


Para a consecução da tolerância entre os povos, são relacionados os seguintes instrumentos jurídicos internacionais:

- Convenção Internacional dos Direitos Civis e Políticos.
- Convenção Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
- Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.
- Convenção para a Prevenção e Combate ao Crime de Genocídio
- A Convenção de 1951 relativa aos Refugiados, e seus Protocolos de 1967 e, ainda, os instrumentos regionais.
- Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher.
- Convenção contra a Tortura e combate a todas as formas de tratamento cruel, desumano ou castigo degradante.
- Declaração de Eliminação de todas as formas de Intolerância baseada na religião ou crença.
- Declaração dos Direitos das Pessoas que pertencem a Nações ou Minorias Étnicas, Religiosas e Lingüísticas.
- Declaração de Medidas para Eliminar o Terrorismo Internacional.
- Declaração de Viena, e Programa de Ação da Conferência Mundial de Direitos Humanos.
- Declaração de Copenhague e Programa de Ação adotada pela Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social.
- Declaração da UNESCO sobre Raça e Preconceito Racial.
- Convenção da UNESCO e Recomendação contra a Discriminação na Educação.


Fonte: Wikipédia.

quinta-feira, julho 14, 2011

Livre para pensar...

...e sonhar.

Dia de Estrela



'Eu posso discordar com o que você tem a dizer, mas vou defender até a morte, o seu direito de dizê-lo.' (Voltaire)

Hoje é Dia da Liberdade de Pensamento, um das inúmeras consequências da Revolução Francesa, que teve o início marcado com a Queda da Bastilha, justamente num 14 de Julho. Ah, você estudou isso na escola, ou dormiu durante a aula, o que foi uma enorme perda pra você.

Aliás, no tempo da Escola (com 'E' maiúsculo mesmo), a irmã da minha melhor amiga tinha aquela frase de Voltaire copiada na primeira página de um dicionário (pra não ficar copiando de caderno pra caderno, de ano em ano), mas eu precisei de algum tempo pra entender plenamente o significado de 'liberdade de pensamento'.

sábado, julho 09, 2011

Vontade de partir



Pode ser um desejo tardio. Eu nunca tive uma bicicleta. Foi uma escolha consciente. No ano em que todos lá em casa puderam ter uma bicicleta, eu escolhi outro presente, e andava na do meu irmão, quando dava vontade. Verdade seja dita: eu adorava andar de bicicleta e tirava o atraso nas férias, num interior do estado, sem trânsito, onde todo mundo tinha uma bicicleta pra me emprestar.





Quando tive meu próprio dinheiro pra custear uma magrela, morava numa cidade que não permitia o luxo de uma bicicleta. Era comprar e ser roubado. Depois, estava com labirintite ou era o excesso de peso, mas o fato é: não é verdadeiro o ditado 'quem andou de bicicleta uma vez, nunca mais desaprende'. Eu desaprendi, porque tentei várias vezes, no mesmo interior do estado, e tudo que ganhei foram quedas. Agora, eu perdi peso, estou bem do labirinto, mas as ladeiras de onde moro agora competem com as de Olinda. Muita gente aqui declara que, se a cidade fosse um pouco mais plana, teria uma bicicleta. Incluindo eu.







Pode ser saudade da sensação de liberdade, de quase voar, incluindo uma vez numa rodovia, em plena chuva. Pode ser ainda a descompensação da doença, que dá essa vontade de sair andando sem rumo. De uma forma ou de outra, eu me peguei namorando umas fotos essa madrugada.







Quem sabe? Talvez eu reaprenda a andar de bicicleta, saia por aí e não volte mais.

sábado, setembro 19, 2009

Precisa dizer mais?

Dess,

Cheguei bem, o show do Coldplay foi indescritivel de tao lindo, chove em Londres agora, e estou feliz.

Amor sempre,

Vicky



'Moving On', de Jack Vettriano

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Ainda lendo Thoreau e curtindo CSI.

"eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".
(Walden, or life in the woods, 1854, por H. David Thoreau)

Deus abençoe Bruckenheimer por produzir CSI e convencer William Petersen a participar do projeto. Gilbert Grissom e sua turma mantiveram minha sanidade, provando que é possível, sim, fazer as coisas da maneira certa e conseguir bons resultados. Claro, Ecklie provou que ser político é a melhor maneira de obter reconhecimento, ainda que seu trabalho seja medíocre (amei aquilo que Sara disse em 'Nesting Dolls', ainda que rendesse uma suspensão pra ela). Maaaaaas, duvido que Conrad Ecklie faça a falta que Gil Grissom faz. Ele pode até ter festa de despedida com bolo (coisa que Grissom não teve), mas no dia seguinte ninguém lembraria dele.

Grissom me apresentou Thoreau, Shakespeare e ópera, além de outras coisas boas. E me fez expurgar tudo que não fosse vida. Tudo mesmo.

***
Descobri que retornei ao meu estado de andarilha e não apenas pela ausência do carro. Considerando que 'aqueles que se deixam permanecer em casa, quietos, sempre e sempre podem ser os maiores errantes de todos', bem entendido. Em 'Andar a pé', H. David Thoreau discorre sobre a arte de andar. E defende que o 'saunterer (um peregrino que vai à Terra Santa, mas que aqui seria o real andarilho) verdadeiro não é mais errante que o rio sinuoso, cujo propósito contínuo é encontrar o caminho mais adequado para o mar'. Então, quem sabe onde estará meu mar? Qual será minha 'Terra Santa'?

É verdade que 'os andarilhos modernos não perseveram e nunca terminam suas iniciativas', mas como a verdadeira liberdade é responsável, é importante lembrar: 'Caso se encontrem preparados para deixar pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filho, e amigos, e a nunca mais vê-los - caso haveis liquidado vossas dívidas, deixado pronto vosso testamento, posto em ordem os negócios e se sois um homem livre, nesse caso estais pronto para uma caminhada'.

Não se auto-intitule andarilho apenas beleza de ser, anônimo leitor. 'Ambulatur nascitur, non fit' ('Nasce-se andarilho, não torna-se um', se meu latim de igreja entendeu bem). Mas eu, que sempre me senti andarilha, apenas peço, como Thoreau: 'Deixai-me viver onde me aprouver', pois isso me faz rica. E 'os requisitos lazer, liberdade e independência, nenhuma fortuna é capaz de comprar'.

232 anos e ninguém entendeu nada

Há alguns anos, mesmo quem nunca estudou história seriamente, teve um vislumbre dos altos ideais que guiaram um grupo de pessoas a tornar a primeira colônia independente de um país através de ato revolucionário. O filme é 'National Treasure', com Nicholas Cage, evidentemente produzido pelo meu reverenciado Jerry Brukenheimer.

Eu já havia lido o texto integral da Declaração de Independência dos EUA (eu acabara de ler 'América', livro-texto adotado na faculdade do ex, que faz História), mas de tanto ver e rever o filme, um trecho se fixou.

Talvez seja a leitura de Thoreau nesses últimos dias, mas em face a esse impasse profissional em que me encontro (eu não tenho nem a quem comunicar que estou saindo do emprego porque até o prefeito eu não acho nessa cidade pequenina), eu ando meio política por esses dias. Logo eu, que sempre fui apartidária.

Thoreau inspirou Ghandi a uma revolução pacífica, quem sabe me inspire também. por via das dúvidas, aí vai meu trecho preferido da Declaração de independência.

'Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação.
Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.
Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos-Guardas para sua futura segurança'.

(4 de julho de 1776, Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América)

Reconheço que o problema não é a prefeitura. Também não é a secretaria de saúde do município. É um modelo, e as pessoas que seguem esse modelo não entendem a necessidade de reavaliar a situação. Eu tentei e tentei explicar e sugerir, e ensinar, que as coisas podem funcionar de forma mais fácil, que conheci diversos modelos de gestão na área de saúde, mas não há quem queira ouvir. Como não posso opinar num governo que não elegi (embora, como cidadã consciente das minhas obrigações, tenha tentado mudar meu título para cá, uma vez que moro aqui há três anos),resta-me seguir um ditado antigo e muito certo: 'Os incomodados que se mudem'.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Como dizia um sábio (ou dois)

Meio (pra não dizer 'muito') danada da vida em ser um (mal utilizado) instrumento político, eu dei de cara com 'A desobediência Civil', de Henry David Thoreau, na banca de revistas da cidade. Ele escreveu o manifesto por causa da abolição da escravatura nos Estados Unidos e protestando contra o abuso de impostos que o Governo impõe. Se não tivesse lido antes de quando datava o texto, teria pensado que ele escreveu pra o último presidente Bush.

'...quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, posso afirmar que não é precipitada a rebelião e a revolução dos homens honestos. Esse dever se torna mais imediato à medida que o país assaltado não é o nosso, e para piorar, o exército invasor é o nosso'.

Ele estava falando da guerra dos EUA contra o México (1846-1848), que deu Texas, Novo México e Califórnia para os Estados Unidos, aumentando o território onde a escravidão negra era considerada legal. Mas a associação com o Iraque é imediata.

Embora o texto fale principalmente sobre Governo, é sobre liberdade e como viver em sociedade. E tem tantos pensamentos geniais, que não dá pra citar todos aqui. O livro é pequeno e o texto fácil. A respeito de citações, anônimo leitor, repito a que encontrei na 'Desobediência':

"Minha origem é nobre demais para que eu seja
propriedade de alguém
Para que eu seja o segundo no comando
ou um útil serviçal ou instrumento
de qualquer Estado soberano deste mundo".

(Shakespeare, King John, parte V)

Como é habitual, ultimamente, eu fui apresentada a Thoreau por CSI(o episódio é 'Happenstance').

sábado, fevereiro 07, 2009

'O que eu sou?'

É o que o robô pergunta a Will Smith em 'I,robot'. Robin Williams refere a si mesmo como 'isto' até obter a liberdade em 'O homem bicentenário'. E eu?

Desde a saída de minha enfermeira tenho trabalhado por duas (o pré-natal das gestantes tem ainda mais papéis que o acompanhamento de hipertensos e diabéticos). Até aí, tudo bem. Já fiquei sem enfermeira antes e sobrevivi. Tirando um certo atrapalho com a burocracia, sei todo o serviço, do agente de saúde, da técnica de enfermagem, da enfermeira e o meu. Todo mesmo. Mas acrescente-se a isso um retorno ao trabalho depois de muito tempo afastada, consciente que há um limite possível de stress a que posso se submetida sem voltar às antigas condições de saúde. Some-se à rotina diária de: 'não sei a que horas e se teremos um carro para levar a equipe', 'não há medicação', inúmeras mensagens díspares dos que trabalham na Secretaria Municipal de Saúde, 'tem concurso, não tem concurso', 'os contratos estão prontos, eu já assinei o meu, ainda não chamaram você?', 'será que eu tenho emprego, será que não?'; e até hoje (ou, ontem, pois são duas e meia da madrugada) eu fui levando.

'Levando', em termos, pois disse a mais de um paciente que ando seriamente inclinada a deixar de vez a Medicina. Eu sei, anônimo leitor, você já conhece essa história. É que eu trabalho com gente decente, minha equipe é possivelmente a melhor que tive em uns 15 postos de saúde que trabalhei desde que me formei e parte do mérito é meu, sim. Talvez eles nem sejam os melhores, mas eu sei como trabalhar com cada um.

É desanimador quando seu público-alvo não entende suas boas intenções (o que não é o caso), mas é totalmente frustrante quando quem deveria ser suporte- pra orientar, supervisionar, acolher críticas - fala uma língua diferente da sua. Não, eles não falam inglês, nem francês. Eles não escrevem em espanhol e decididamente não estão interessados em aprender a linguagem dos sinais. E eu cansei.

Oh, eu falei 'supervisionar'? Quem é mesmo o supervisor disso? Com quem eu falo quando eu tenho alguma complicação? Uma secretaria de saúde que não sabia nem que eu estava de licença-médica (e eles que me enviaram pro INSS)! Que esqueceu de me incluir na folha de pagamento! Onde o 'responsável' pelos transportes determina quando chego e quando saio do meu local de trabalho!

(eu ficava das oito às dezesseis ou catorze, dependendo do dia. Agora eu chego às nove e saio às catorze, ou chego às onze, saio à uma. Fazendo as contas, estou fazendo o meu trabalho na metade do tempo e o da enfermeira também! Fazendo o trabalho de duas, recebendo por uma e na metade do tempo, logo, deveria receber por quatro, ou pelo menos por duas. Ou simplesmente receber meu salário sem ter que ir atrás.)

Desde que eu voltei, não fiz uma palestra, não tive um dia de visita domiciliar, não cadastrei um novo hipertenso nem atualizei a lista dos antigos. Não me pergunte o que meus diabéticos e hipertensos estão tomando como medicação, eu não sei mais, simplesmente porque não tenho tempo de registrar! Eu, que sei até os apelidos de quase 400 pessoas, que sei onde moram, se faziam a dieta, se sabiam ler. Já não sei mais. Não tenho tempo de registrar minhas consultas. Tive que marcar uma quantidade menor de pacientes hoje pra conseguir terminar o trabalho de segunda-feira!

Não nasci para 'tocar serviço'. Nasci para fazer a diferença, qualquer que seja a área onde eu atue. Se eu tivesse condições, estaria cancelando minha inscrição primária no Conselho Regional de Medicina o mais rápido possível. Mas eu tenho contas para pagar e, ao contrário de há alguns meses, agora eu tenho uma razão para viver. Então, eu reassisti 'Goodbye and Good Luck' (quando Sara diz adeus ao amor da vida dela, mas que tem que sair dali ou vai se destruir), que foi o que me manteve a sanidade em junho passado. E estou seguido a ordem dos episódios até chegar a 'One to go'.

Assim como Grissom, chegou a hora de partir.

Odessa Valadares: Escritora, tradutora e 'doutora' só pra pagar as contas.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sonhando com liberdade

O bom da internet é que, com paciência e algum conhecimento de línguas, você descobre o que quiser. Passei quinze anos lembrando de uma música que ouvi em 'Dirty Dancing' e eis que a internet me fornece nome, letra e até o download! Desde então, venho me divertindo com isso. Tentando saber por que falam tanto de ópera e o que estão cantando naquelas árias, por exemplo. A Wikipédia ajuda (e muito) mesmo quando a pessoa só fala português.


Há catorze anos, eu assisti à entrega do Oscar e lembro perfeitamente que 'Um Sonho de Liberdade' (“The Shawshank redemption”) foi indicado como 'Melhor Filme'. A cena exibida para apresentar a história foi a de Dufresne colocando um disco de ópera para tocar através do alto-falante da prisão. Eu precisei de 14 exatos anos, mas agora sei 'o que aquelas italianas cantavam'.


A cena é de 'As bodas de Fígaro', uma ópera de enredo intricado (e cheio de subentendidos no dialeto original), onde Fígaro é noivo de Susanna e ambos são servos de um conde que deseja exercer seu 'direito de senhor' na noite de núpcias. A condessa e Susanna armam um plano onde Susanna marcará um encontro com o conde para essa noite, através de uma carta. E quem comparecerá é a própria esposa do conde, vestida como Susanna. 'Canzonnetta sull'aria', também conhecida como 'o dueto da carta' é cantada por duas vozes femininas onde a condessa dita a carta e Susanna repete a frase que está escrevendo.


Eu (muitas vezes) me perguntei se Dufresne chegou a explicar o enredo da ópera para os colegas da prisão, ou pelo menos para Red, que era seu amigo. Durante muito tempo eu procurei a tradução de 'Rita Rayworth and the Shawshank redemption', a short novel de Shephen King que deu origem ao filme, mas nunca encontrei. Talvez eu tivesse a vaga esperança de entender melhor uma cena que não precisa ser entendida, mas sentida intensamente.



Acho que Red tinha razão:


“Não faço idéia do que aquelas italianas cantavam. Na verdade, eu nem quero saber. Há coisas que é melhor deixar sem ser dito. Acho que era algo tão belo que não pode ser expresso em palavras e faz o seu coração se apertar por causa da música. Aquelas vozes voaram mais alto e mais longe do que qualquer homem pode imaginar num lugar cinzento. Era como um belo pássaro que voou para nossa gaiola e fez os muros desaparecerem. E pelo mais breve momento, cada homem de Shawshank se sentiu livre”.


Mas, se você, anônimo leitor, é curioso como eu, aí vai:


Condessa: Oh, escreve, eu digo a você
(Susanna senta para escrever)
Condessa: ‘Uma cançãozinha na brisa...’ ("Canzonetta sull'aria ... " )
Susanna: ‘Na brisa...’ ("Sull'aria ... ")
Condessa: ‘Que suave angra...’ (Che soave zeffiretto ... ")
Susanna: ‘Angra...’ ("Zeffiretto ... ")
Condessa: ‘Irá sussurrar esta noite...’ ("Questa sera spirerà ... ")
Susanna: ‘Irá sussurrar esta noite...’ ("Questa sera spirerà ... ")
Condessa: ‘Entre os pinheiros do bosque...’ ("Sotto i pini del boschetto.")
Susanna: ‘Entre os pinheiros...’ ("Sotto i pini ... ")
Condessa: ‘Entre os pinheiros do bosque...’ ("Sotto i pini del boschetto...")
Susanna: ‘Entre os pinheiros... do bosque...’ ("Sotto i pini... del boschetto...")
Condessa: E ele entenderá o resto. (Ei già il resto capirà.)
Susanna: Oh, sim, certamente ele entenderá o resto. (Certo, certo il capirà.)


Para quem não conhece o blog: eu não sei italiano, mas estudei francês e inglês e conheço espanhol. Essa tradução é desta página, que exibe o texto original (em italiano) e a tradução em inglês. Eu sei que 'tradução da tradução' é quase um crime, mas se nem na Wikipédia eu encontrei, pelo menos dá pra ter uma idéia. Crime mesmo é não encontrar uma única ária da ópera mais famosa de Mozart com tradução para o português.


P.S.: Coincidentemente, meus dois filmes prediletos 'de prisão' são do 'Mestre do Terror': 'The Green Mille' e 'The Shawshank redemption'. Eu não gosto de terror, mas a-do-rei 'The Green Mille' ('À Espera de um milagre'), filme E livro. E se você é aficcionado por cinema, eis o script de The Shanwshank Redemption.