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domingo, dezembro 02, 2012
domingo, outubro 23, 2011
Um amor antigo ou um amor eterno?
Tem dias - e noites - em que a gente se pega sentindo saudade de alguém. Pode ser um amor antigo, um amor eterno, uma pessoa que foi importante em alguma época de sua vida: colega de turma ou de trabalho, um professor, seu vizinho. Pode ser um personagem cuja existência só significa algo pra você ou um que - como uma pessoa 'real - tem diferentes significados para cada um.

Digo isso porque desde essa madrugada me deu saudade de Grissom. Assim, do nada. Eu não vi nenhum episódio de CSI nos últimos quatro dias, não me lembro exatamente quando assisti algo pré-nona temporada, mas não tem duas semanas, eu acho. Só me veio aquela vontade de saber como ele vai. Depois de anos sem Grissom, hoje deu saudade do bug-man.

Grissom me ganhou por ser esquisito: dedicado ao extremo ao trabalho, com paixão por aprender mais sobre tudo, sem medo de botar a mão na massa, sem fazer política e tendo uma das piores políticas de relacionamento chefe/subordinado já registradas. E o time o respeitava, porque ele aprendeu a respeitar cada um, à maneira dele. Eu poderia dizer que Gil vive num mundo à parte, de tão concentrado no que está fazendo. Sinto falta disso no lab. Ninguém mais se concentra desse jeito.

Desde que ele se foi de Vegas, acho que ninguém mais rompeu a couraça de sarcasmo de Brass. Com quem será que ele fala sobre a filha e os casos difíceis? Apenas com a garrafa de scotch? Sozinho, é melancólico. Com Grissom, era dividir um peso. Falando em dividir, sim, eu entendo o arranjo no casamento dele e Sara, tanto por questões profissionais, quanto pela necessidade de espaço que ambos cultivaram ao longo dos anos. Basta dar um tempo pra Griss se ajustar à nova situação - o que pode levar mais uns anos, veja o tempo que levou pra ele se envolver com Sara e depois pra se casarem! Mas é o tempo de Grissom, não o meu, ou o seu.

Sinto. Sinto falta do meu entomologista citando Shakespeare em cenas de crime, lendo Thoreau no trabalho, conversando com o Dr Robbins, convivendo com Ecklie porque era o jeito. Sinto falta da sala cheia de objetos nunca completamente identificados em todos aqueles anos. Ver aquela sala vazia me balançou, especialmente agora com o novo supervisor. E, quando a gente sente saudade, lembra com carinhos até das pequenas implicâncias. Eu, por exemplo, sempre quis pôr a mão naquele chapéu horrível e excluí-lo dos bens utilizáveis do planeta, exceto como combustível.

Sim, eu adoro perícia. Adoro ciência e o modo como juntam tudo com os motivos, e quase sempre tudo se encaixa - embora passe metade do episódio ou reclamando por algum erro técnico básico, ou deduzindo os resultados. Adoro os ratos do laboratório, tenho os CSI mais antigos como uma família meio doida (como toda família de verdade), mas todo grupo tem uma figura central, uma cola. E eu sempre achei que fosse Grissom. Continuo achando. Mas bem que ele podia aparecer pra uma visita aos velhos amigos.

Digo isso porque desde essa madrugada me deu saudade de Grissom. Assim, do nada. Eu não vi nenhum episódio de CSI nos últimos quatro dias, não me lembro exatamente quando assisti algo pré-nona temporada, mas não tem duas semanas, eu acho. Só me veio aquela vontade de saber como ele vai. Depois de anos sem Grissom, hoje deu saudade do bug-man.

Grissom me ganhou por ser esquisito: dedicado ao extremo ao trabalho, com paixão por aprender mais sobre tudo, sem medo de botar a mão na massa, sem fazer política e tendo uma das piores políticas de relacionamento chefe/subordinado já registradas. E o time o respeitava, porque ele aprendeu a respeitar cada um, à maneira dele. Eu poderia dizer que Gil vive num mundo à parte, de tão concentrado no que está fazendo. Sinto falta disso no lab. Ninguém mais se concentra desse jeito.

Desde que ele se foi de Vegas, acho que ninguém mais rompeu a couraça de sarcasmo de Brass. Com quem será que ele fala sobre a filha e os casos difíceis? Apenas com a garrafa de scotch? Sozinho, é melancólico. Com Grissom, era dividir um peso. Falando em dividir, sim, eu entendo o arranjo no casamento dele e Sara, tanto por questões profissionais, quanto pela necessidade de espaço que ambos cultivaram ao longo dos anos. Basta dar um tempo pra Griss se ajustar à nova situação - o que pode levar mais uns anos, veja o tempo que levou pra ele se envolver com Sara e depois pra se casarem! Mas é o tempo de Grissom, não o meu, ou o seu.

Sinto. Sinto falta do meu entomologista citando Shakespeare em cenas de crime, lendo Thoreau no trabalho, conversando com o Dr Robbins, convivendo com Ecklie porque era o jeito. Sinto falta da sala cheia de objetos nunca completamente identificados em todos aqueles anos. Ver aquela sala vazia me balançou, especialmente agora com o novo supervisor. E, quando a gente sente saudade, lembra com carinhos até das pequenas implicâncias. Eu, por exemplo, sempre quis pôr a mão naquele chapéu horrível e excluí-lo dos bens utilizáveis do planeta, exceto como combustível.

Sim, eu adoro perícia. Adoro ciência e o modo como juntam tudo com os motivos, e quase sempre tudo se encaixa - embora passe metade do episódio ou reclamando por algum erro técnico básico, ou deduzindo os resultados. Adoro os ratos do laboratório, tenho os CSI mais antigos como uma família meio doida (como toda família de verdade), mas todo grupo tem uma figura central, uma cola. E eu sempre achei que fosse Grissom. Continuo achando. Mas bem que ele podia aparecer pra uma visita aos velhos amigos.
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domingo, agosto 28, 2011
Uma senhora indicação

Sabe quando a gente ganha um presente, dá aquele sorriso amarelo, agradece, depois esquece no armário? Um tempão depois, reencontra o embrulho e o presente se encaixa perfeitamente com você? Aconteceu comigo há uns dois, três meses.

Eu precisava de mais um HD externo, porque o primeiro não estava dando conta da quantidade de dados. Cinéfila e... como se chama quem acompanha fielmente algumas séries por mais de uma década? Pois é, precisei de mais um HD e encomendei um ao meu personal tecnológico, vulgo meu irmão. Claro que com direito a honorários! Irmão, irmão, negócios à parte.

Ele encomendou, recebeu, testou, colocou uns programinhas pra instalar na máquina quando eu chegasse em casa, uns filmes que eu poderia gostar de assistir e uma série que eu nunca tinha ouvido falar. Eu sou muito, mas muito seletiva com novas séries porque sou bastante fiel às que acompanho. Por exemplo, parei de assistir 'Californication' na segunda temporada (ainda bem que Vicky não passa mais por aqui, ela ama o Duchovny), assim como 'The L word', não porque fossem ruins, mas porque não eram boas o bastante pra prender minha atenção, quando eu já tenho 'Bones', CSI, etc.

Essa semana, eu estava 'arrumando' o HD novo (cria pasta, arrasta pasta, etc) e vi a pasta: 'Game of Thrones'. A essa altura, eu já havia me esquecido sobre o que era, mas tinha certeza que meu irmão havia detalhado o enredo. Mas eu tinha tanta coisa pra assistir, - incluindo os primeiros episódios da nova temporada de 'Torchwood' - que nem abri a pasta. Fiz isso hoje e assisti a primeira temporada inteira (com 10 episódios) num fôlego só.

A série se passa na época medieval, com reis, cavaleiros, tribos selvagens, juramentos de honra, testes de coragem, jogos de intriga e sedução. A classificação é adulta, tem cenas de morte e sexo. Não é para corações, nem estômagos fracos, mas se você conseguiu assistir 'Coração Valente', enfrenta numa boa. Aliás, confesso que eles me prenderam na cadeira logo na abertura. Genial.

Agora só falta eu assistir 'O homem de ferro', que meu irmão indica há uns três anos. O problema é que eu não sou fã do homem de ferro...
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segunda-feira, janeiro 10, 2011
Insônia, insônia...
The L word (Los Angeles, um monte de garotas, que não querem saber de rapazes, se você me entende)

Torchwood, da BBC (spin-off de 'Dr Who', com um toque de Arquivo X. Indicação de Vicky)

Californication, com David Duchovny (indicação de Vicky, há anos)

Todas pra maiores de 21 anos (contém cenas de sexo, uso de drogas, relacionamentos homo e/ou bissexuais, e outras impropriedades). Você foi avisado.

Torchwood, da BBC (spin-off de 'Dr Who', com um toque de Arquivo X. Indicação de Vicky)

Californication, com David Duchovny (indicação de Vicky, há anos)

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quarta-feira, dezembro 29, 2010
É, estou mesmo acreditando:
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sábado, dezembro 25, 2010
Cadê meus criminalistas?

Como muita gente, ando morrendo de saudade da minha série predileta, e nem posso compensar assistindo outras séries que gosto. Todo mundo está de férias, por causa das festas. E eu admito:
Muitos me consideram
Será? Se sou, enquanto janeiro não vem, o jeito é rever 10 anos e meio de CSI, 5 anos e meio de Bones, 5 anos e meio de Criminal Minds, verificar as indicações de Vicky (como Californication, com David Duchovny), e é importante esclarecer:

Bom, CSI volta dia 06 de janeiro de 2011 e aqui está o calendário completo das séries, pra 2011. Enquanto isso, votos de bom Natal...

... e pra matar as saudades, encontrei uma coleção fantástica de canecas com o tema CSI.
Adoro esses tumblers:
Eles também têm uma porção de objetos na linha GSR.

Ímã, com as frases que qualquer fã GSR sabe de cor

A propósito:
P.S.: Li em algum lugar ('Organize-se num minuto', 'Chega de Bagunça', não lembro onde exatamente) que você pode fotografar diversos itens que guarda pelo valor sentimental e passá-los adiante, por causa do volume de peças que recolhemos ao longo da vida. Por exemplo, você pode digitalizar todos aqueles álbuns de fotos e ainda compartilhar com o pessoal da família. A idéia vale pra diversos objetos, como essas canecas que adoro, e outros itens colecionáveis. Eu salvo as imagens e economizo um dinheirão.
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segunda-feira, julho 26, 2010
Chegou!
Com essa internet lerda, eu acabei me esquecendo. Finalmente encontrei 'Walden', de Henry David Thoreau, numa edição de 1953, em perfeito estado. Ano passado, finalmente republicaram a obra em português, mas em Portugal. Acho um absurdo que uma obra tão importante não seja mais publicada no Brasil. Foi preciso revirar muito sebo virtual, até achar um último exemplar, mas está valendo a pena. Exceto por um exemplo ou outro, Thoreau poderia estar falando de qualquer um de nós. Vejo-me rindo com conjecturações do filósofo sobre nosso apego aos bens materiais, às pessoas que não querem se mudar porque não querer se desfazer dos antigos móveis (tá, pode rir, eu deixo) e hoje cheguei na passagem mais famosa do livro.

Eu não construí minha cabana, mas estou trabalhando nela com minhas mãos. Não trabalho mais horas num dia, que o necessário pra me manter. Acho que estou no caminho certo. Na verdade, eu fico falando de halls e quadros, e cores pras paredes, quando só quero espaço bastante pra escrever. Assim está bom:

Eu não construí minha cabana, mas estou trabalhando nela com minhas mãos. Não trabalho mais horas num dia, que o necessário pra me manter. Acho que estou no caminho certo. Na verdade, eu fico falando de halls e quadros, e cores pras paredes, quando só quero espaço bastante pra escrever. Assim está bom:
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domingo, julho 18, 2010
Só, eu?
A solidão amiga - Rubem Alves
A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala.
Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.
Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma.
Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem.
Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.
Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“
Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca.
Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“
E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento!
Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“
Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.
E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:
“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“
Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos.
Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.
Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.
***
'Ficar sozinho é pra quem tem coragem', diz a letra de 'Violão e Voz', e eu concordo. Encontrei o texto acima por causa de uma citação num email. Eram tantas as passagens dignas de citação, que acabei postando o texto inteiro e grifando o que queria ressaltar. Essencialmente, ele defende que 'é melhor estar só que mal acompanhado', se você sabe ser uma boa companhia pra si mesmo. Nada pior que procurar companhia pra não ficar só. É nisso que vemos casais solitários em si mesmos. Não há nada mais solitário que se sentir só quando se está acompanhado.

('A very married couple', by Jack Vettriano)
É preciso entender que não tenho nada contra a companhia dos outros, mas com a qualidade da companhia. As pessoas me acham muito solitária e eu desisti de explicar que não costumo me sentir só. Isso é muito, muito raro. Mesmo porque, se isso acontece, sempre aparece algum personagem pra me fazer companhia, o que geralmente rende uma boa cena. Pelo visto, é o mesmo pro Rubem Alves.
Nem mesmo no fato de imaginar companhia eu estou só. Dickens, Sidney Sheldon, Rubem Alves, e por aí vai. Se eu sou doida de pedra, pelo menos não estou só nessa.
***
Dica: sobre o prazer de caminhar, eu indico 'Andar a pé', de Henry David Thoreau.
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terça-feira, junho 01, 2010
Mais do mesmo
Fazer feira foi a pena de Eva e Adão pelo pecado original. Pensa comigo: eles tinham tudo, do bom e do melhor no Paraíso, e fizeram besteira. Desde então, as pessoas precisam procurar, escolher, e finalmente pagar pelo que consomem. Eu não me importo de pagar, mas detesto fazer feira, ainda mais em tempo de mudança.
Aliás, eu estou exausta e queria eu que o motivo fosse a mudança. O trabalho está absurdo. Hoje, foi tão pesado que eu fiz algo inédito em dez anos de profissão: avisei que não trabalho amanhã. Fiz questão de esclarecer que não tenho nenhum compromisso, que não tem nada a ver com a mudança. É que as pessoas abusam. Os outros médicos vivem faltando, vão em três dos quatro dias combinados, só atendem um número 'x' de fichas, e eu trabalho os quatro dias, chego na hora, saio depois do horário... Chega!
Sim, eu vou cumprir os prazos. Percebi que não estou desmontando um cômodo por vez e isso está atrasando o serviço. A desculpa é que preciso de determinados itens de cada cômodo. Ora! Quando me mudei pra essa cidade, eu sobrevivi dias e dias com um único cômodo com o essencial. Posso fazer isso novamente.
Então, eu não empacotei nada hoje, nem conferi o que mandei pro conserto, e nem lembro quando escrevi algo que não fosse um email ou um post. Amanhã seria um bom dia pra tirar o atraso, mas eu vou é dormir. Se me der coragem, eu vou consertar as panelas e fazer o declutter, nome chique pra 'bota-fora'. Excluir de minha vida tudo que é desnecessário. Você sabe, já dizia um de meus Davids: "eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".
(Walden, or life in the woods, 1854, por H. David Thoreau)
Vou aproveitar a mudança e expurgar TUDO de mim que não seja vida. Se a profissão estiver na lista, adeus. Sem saudade.
Aliás, eu estou exausta e queria eu que o motivo fosse a mudança. O trabalho está absurdo. Hoje, foi tão pesado que eu fiz algo inédito em dez anos de profissão: avisei que não trabalho amanhã. Fiz questão de esclarecer que não tenho nenhum compromisso, que não tem nada a ver com a mudança. É que as pessoas abusam. Os outros médicos vivem faltando, vão em três dos quatro dias combinados, só atendem um número 'x' de fichas, e eu trabalho os quatro dias, chego na hora, saio depois do horário... Chega!
Sim, eu vou cumprir os prazos. Percebi que não estou desmontando um cômodo por vez e isso está atrasando o serviço. A desculpa é que preciso de determinados itens de cada cômodo. Ora! Quando me mudei pra essa cidade, eu sobrevivi dias e dias com um único cômodo com o essencial. Posso fazer isso novamente.
Então, eu não empacotei nada hoje, nem conferi o que mandei pro conserto, e nem lembro quando escrevi algo que não fosse um email ou um post. Amanhã seria um bom dia pra tirar o atraso, mas eu vou é dormir. Se me der coragem, eu vou consertar as panelas e fazer o declutter, nome chique pra 'bota-fora'. Excluir de minha vida tudo que é desnecessário. Você sabe, já dizia um de meus Davids: "eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".
(Walden, or life in the woods, 1854, por H. David Thoreau)
Vou aproveitar a mudança e expurgar TUDO de mim que não seja vida. Se a profissão estiver na lista, adeus. Sem saudade.
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terça-feira, fevereiro 09, 2010
Curtas
Ganhei o DVD de curtas da Pixar de presente atrasado de Natal. Imediatamente me lembrei do meu irmão, que coleciona isso há anos. Ele sempre enfatiza o quanto a Pixar evoluiu ao longo dos anos em matéria de animação. Isso me lembra que tenho que assistir 'Up'. Oooops! E 'Wall-e' também.
***
Depois que Bonner comentou sobre 'Invictus' no twitter e Fernanda fez propaganda do filme, fiquei ainda mais sentida de ter perdido a sessão. Acho que vou a Recife só pra ver o filme. Eastwood, Freeman e Damon na mesma sessão são um convite e tanto.
***
Eu me curvo à qualidade de David Rambo como produtor, mas sinto falta dos roteiros com Grissom e Sara. Acho que estou com saudades daqueles dois. A culpa é da Record, que está reprisando CSI de segunda a sexta.
***
Parece que parou de chover em São Paulo...
***
Depois que Bonner comentou sobre 'Invictus' no twitter e Fernanda fez propaganda do filme, fiquei ainda mais sentida de ter perdido a sessão. Acho que vou a Recife só pra ver o filme. Eastwood, Freeman e Damon na mesma sessão são um convite e tanto.
***
Eu me curvo à qualidade de David Rambo como produtor, mas sinto falta dos roteiros com Grissom e Sara. Acho que estou com saudades daqueles dois. A culpa é da Record, que está reprisando CSI de segunda a sexta.
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Parece que parou de chover em São Paulo...
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William Bonner
sexta-feira, maio 01, 2009
Indicações
Alguns meses antes, eu comentei sobre o texto de Thoreau 'Andar a pé'. Então, uma anônima leitora encontrou em ebook e enviou-me o link. Ótimo, porque eu li um condensado dos textos do autor, publicado pela Martin Claret. O texto tem 59 páginas com um tipo gigante, ou seja, é bem mais curto do que parece e vale a leitura. Muito obrigada pela indicação!
***
Falando em indicações, o tal site de Jack Vettriano é ma-ra-vi-lho-so. Acho que a expressão correta para o que sinto ao ver aqueles quadros é 'cupidez'. E 'vejo' a imagem que criei para este pseudônimo (Odessa Valadares) em muitas das obras do artista.

'Table for One, de Jack Vettriano'
***
Falando em indicações, o tal site de Jack Vettriano é ma-ra-vi-lho-so. Acho que a expressão correta para o que sinto ao ver aqueles quadros é 'cupidez'. E 'vejo' a imagem que criei para este pseudônimo (Odessa Valadares) em muitas das obras do artista.

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quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Ainda lendo Thoreau e curtindo CSI.
"eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".
(Walden, or life in the woods, 1854, por H. David Thoreau)
Deus abençoe Bruckenheimer por produzir CSI e convencer William Petersen a participar do projeto. Gilbert Grissom e sua turma mantiveram minha sanidade, provando que é possível, sim, fazer as coisas da maneira certa e conseguir bons resultados. Claro, Ecklie provou que ser político é a melhor maneira de obter reconhecimento, ainda que seu trabalho seja medíocre (amei aquilo que Sara disse em 'Nesting Dolls', ainda que rendesse uma suspensão pra ela). Maaaaaas, duvido que Conrad Ecklie faça a falta que Gil Grissom faz. Ele pode até ter festa de despedida com bolo (coisa que Grissom não teve), mas no dia seguinte ninguém lembraria dele.
Grissom me apresentou Thoreau, Shakespeare e ópera, além de outras coisas boas. E me fez expurgar tudo que não fosse vida. Tudo mesmo.
***
Descobri que retornei ao meu estado de andarilha e não apenas pela ausência do carro. Considerando que 'aqueles que se deixam permanecer em casa, quietos, sempre e sempre podem ser os maiores errantes de todos', bem entendido. Em 'Andar a pé', H. David Thoreau discorre sobre a arte de andar. E defende que o 'saunterer (um peregrino que vai à Terra Santa, mas que aqui seria o real andarilho) verdadeiro não é mais errante que o rio sinuoso, cujo propósito contínuo é encontrar o caminho mais adequado para o mar'. Então, quem sabe onde estará meu mar? Qual será minha 'Terra Santa'?
É verdade que 'os andarilhos modernos não perseveram e nunca terminam suas iniciativas', mas como a verdadeira liberdade é responsável, é importante lembrar: 'Caso se encontrem preparados para deixar pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filho, e amigos, e a nunca mais vê-los - caso haveis liquidado vossas dívidas, deixado pronto vosso testamento, posto em ordem os negócios e se sois um homem livre, nesse caso estais pronto para uma caminhada'.
Não se auto-intitule andarilho apenas beleza de ser, anônimo leitor. 'Ambulatur nascitur, non fit' ('Nasce-se andarilho, não torna-se um', se meu latim de igreja entendeu bem). Mas eu, que sempre me senti andarilha, apenas peço, como Thoreau: 'Deixai-me viver onde me aprouver', pois isso me faz rica. E 'os requisitos lazer, liberdade e independência, nenhuma fortuna é capaz de comprar'.
(Walden, or life in the woods, 1854, por H. David Thoreau)
Deus abençoe Bruckenheimer por produzir CSI e convencer William Petersen a participar do projeto. Gilbert Grissom e sua turma mantiveram minha sanidade, provando que é possível, sim, fazer as coisas da maneira certa e conseguir bons resultados. Claro, Ecklie provou que ser político é a melhor maneira de obter reconhecimento, ainda que seu trabalho seja medíocre (amei aquilo que Sara disse em 'Nesting Dolls', ainda que rendesse uma suspensão pra ela). Maaaaaas, duvido que Conrad Ecklie faça a falta que Gil Grissom faz. Ele pode até ter festa de despedida com bolo (coisa que Grissom não teve), mas no dia seguinte ninguém lembraria dele.
Grissom me apresentou Thoreau, Shakespeare e ópera, além de outras coisas boas. E me fez expurgar tudo que não fosse vida. Tudo mesmo.
***
Descobri que retornei ao meu estado de andarilha e não apenas pela ausência do carro. Considerando que 'aqueles que se deixam permanecer em casa, quietos, sempre e sempre podem ser os maiores errantes de todos', bem entendido. Em 'Andar a pé', H. David Thoreau discorre sobre a arte de andar. E defende que o 'saunterer (um peregrino que vai à Terra Santa, mas que aqui seria o real andarilho) verdadeiro não é mais errante que o rio sinuoso, cujo propósito contínuo é encontrar o caminho mais adequado para o mar'. Então, quem sabe onde estará meu mar? Qual será minha 'Terra Santa'?
É verdade que 'os andarilhos modernos não perseveram e nunca terminam suas iniciativas', mas como a verdadeira liberdade é responsável, é importante lembrar: 'Caso se encontrem preparados para deixar pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filho, e amigos, e a nunca mais vê-los - caso haveis liquidado vossas dívidas, deixado pronto vosso testamento, posto em ordem os negócios e se sois um homem livre, nesse caso estais pronto para uma caminhada'.
Não se auto-intitule andarilho apenas beleza de ser, anônimo leitor. 'Ambulatur nascitur, non fit' ('Nasce-se andarilho, não torna-se um', se meu latim de igreja entendeu bem). Mas eu, que sempre me senti andarilha, apenas peço, como Thoreau: 'Deixai-me viver onde me aprouver', pois isso me faz rica. E 'os requisitos lazer, liberdade e independência, nenhuma fortuna é capaz de comprar'.
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232 anos e ninguém entendeu nada
Há alguns anos, mesmo quem nunca estudou história seriamente, teve um vislumbre dos altos ideais que guiaram um grupo de pessoas a tornar a primeira colônia independente de um país através de ato revolucionário. O filme é 'National Treasure', com Nicholas Cage, evidentemente produzido pelo meu reverenciado Jerry Brukenheimer.
Eu já havia lido o texto integral da Declaração de Independência dos EUA (eu acabara de ler 'América', livro-texto adotado na faculdade do ex, que faz História), mas de tanto ver e rever o filme, um trecho se fixou.
Talvez seja a leitura de Thoreau nesses últimos dias, mas em face a esse impasse profissional em que me encontro (eu não tenho nem a quem comunicar que estou saindo do emprego porque até o prefeito eu não acho nessa cidade pequenina), eu ando meio política por esses dias. Logo eu, que sempre fui apartidária.
Thoreau inspirou Ghandi a uma revolução pacífica, quem sabe me inspire também. por via das dúvidas, aí vai meu trecho preferido da Declaração de independência.
'Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação.
Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.
Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos-Guardas para sua futura segurança'.
(4 de julho de 1776, Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América)
Reconheço que o problema não é a prefeitura. Também não é a secretaria de saúde do município. É um modelo, e as pessoas que seguem esse modelo não entendem a necessidade de reavaliar a situação. Eu tentei e tentei explicar e sugerir, e ensinar, que as coisas podem funcionar de forma mais fácil, que conheci diversos modelos de gestão na área de saúde, mas não há quem queira ouvir. Como não posso opinar num governo que não elegi (embora, como cidadã consciente das minhas obrigações, tenha tentado mudar meu título para cá, uma vez que moro aqui há três anos),resta-me seguir um ditado antigo e muito certo: 'Os incomodados que se mudem'.
Eu já havia lido o texto integral da Declaração de Independência dos EUA (eu acabara de ler 'América', livro-texto adotado na faculdade do ex, que faz História), mas de tanto ver e rever o filme, um trecho se fixou.
Talvez seja a leitura de Thoreau nesses últimos dias, mas em face a esse impasse profissional em que me encontro (eu não tenho nem a quem comunicar que estou saindo do emprego porque até o prefeito eu não acho nessa cidade pequenina), eu ando meio política por esses dias. Logo eu, que sempre fui apartidária.
Thoreau inspirou Ghandi a uma revolução pacífica, quem sabe me inspire também. por via das dúvidas, aí vai meu trecho preferido da Declaração de independência.
'Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação.
Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.
Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos-Guardas para sua futura segurança'.
(4 de julho de 1776, Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América)
Reconheço que o problema não é a prefeitura. Também não é a secretaria de saúde do município. É um modelo, e as pessoas que seguem esse modelo não entendem a necessidade de reavaliar a situação. Eu tentei e tentei explicar e sugerir, e ensinar, que as coisas podem funcionar de forma mais fácil, que conheci diversos modelos de gestão na área de saúde, mas não há quem queira ouvir. Como não posso opinar num governo que não elegi (embora, como cidadã consciente das minhas obrigações, tenha tentado mudar meu título para cá, uma vez que moro aqui há três anos),resta-me seguir um ditado antigo e muito certo: 'Os incomodados que se mudem'.
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segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Como dizia um sábio (ou dois)
Meio (pra não dizer 'muito') danada da vida em ser um (mal utilizado) instrumento político, eu dei de cara com 'A desobediência Civil', de Henry David Thoreau, na banca de revistas da cidade. Ele escreveu o manifesto por causa da abolição da escravatura nos Estados Unidos e protestando contra o abuso de impostos que o Governo impõe. Se não tivesse lido antes de quando datava o texto, teria pensado que ele escreveu pra o último presidente Bush.
'...quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, posso afirmar que não é precipitada a rebelião e a revolução dos homens honestos. Esse dever se torna mais imediato à medida que o país assaltado não é o nosso, e para piorar, o exército invasor é o nosso'.
Ele estava falando da guerra dos EUA contra o México (1846-1848), que deu Texas, Novo México e Califórnia para os Estados Unidos, aumentando o território onde a escravidão negra era considerada legal. Mas a associação com o Iraque é imediata.
Embora o texto fale principalmente sobre Governo, é sobre liberdade e como viver em sociedade. E tem tantos pensamentos geniais, que não dá pra citar todos aqui. O livro é pequeno e o texto fácil. A respeito de citações, anônimo leitor, repito a que encontrei na 'Desobediência':
"Minha origem é nobre demais para que eu seja
propriedade de alguém
Para que eu seja o segundo no comando
ou um útil serviçal ou instrumento
de qualquer Estado soberano deste mundo".
(Shakespeare, King John, parte V)
Como é habitual, ultimamente, eu fui apresentada a Thoreau por CSI(o episódio é 'Happenstance').
'...quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, posso afirmar que não é precipitada a rebelião e a revolução dos homens honestos. Esse dever se torna mais imediato à medida que o país assaltado não é o nosso, e para piorar, o exército invasor é o nosso'.
Ele estava falando da guerra dos EUA contra o México (1846-1848), que deu Texas, Novo México e Califórnia para os Estados Unidos, aumentando o território onde a escravidão negra era considerada legal. Mas a associação com o Iraque é imediata.
Embora o texto fale principalmente sobre Governo, é sobre liberdade e como viver em sociedade. E tem tantos pensamentos geniais, que não dá pra citar todos aqui. O livro é pequeno e o texto fácil. A respeito de citações, anônimo leitor, repito a que encontrei na 'Desobediência':
"Minha origem é nobre demais para que eu seja
propriedade de alguém
Para que eu seja o segundo no comando
ou um útil serviçal ou instrumento
de qualquer Estado soberano deste mundo".
(Shakespeare, King John, parte V)
Como é habitual, ultimamente, eu fui apresentada a Thoreau por CSI(o episódio é 'Happenstance').
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segunda-feira, janeiro 26, 2009
'Dinheiro? Pra quê dinheiro?'
Antes que eu me esqueça: tive um estalo e fui conferir. Dito e feito, meu nome não estava na folha de pagamento porque a secretaria de saúde (aquela que esqueceu que eu ainda trabalhava pra eles) não avisou ao departamento de contas.
'Não, doutora, a senhora não vai perder seu dinheiro. Ele vem junto com o salário de fevereiro'. Esse povo vive de brisa, é? Eu é que vivo em dezenas de realidades ao mesmo tempo, nunca confundi meus personagens, minhas histórias, nunca chamei um de vocês com o nome deles, nem esqueço que tenho aluguel, comida, conta de luz, coisas assim. Vai que o secretário de administração não paga aluguel e se nutre com luz solar. 'E como eu pago meu aluguel e faço a feira, doutor? O último pagamento do benefício do INSS foi no início de dezembro'.
Não sei quem fez o quê, mas só saí de lá com o acordo que meu salário será pago esse mês através de 'empenho' (um termo chique pra pagamento de serviços a terceiros que não prestam serviços habituais à instituição pública) e na mesma época dos meus colegas. 'O erro não foi meu, porque foi com vocês mesmos que eu falei pra assinar logo meu contrato, estava com xerox dos documentos e foto no primeiro dia útil de janeiro'. Pura verdade e eles não podiam mesmo negar.
Se o tribunal de contas suspendeu os contratos, se o funcionário da secretaria de saúde esqueceu de passar a CI pra quem faz a folha de pagamento, problema dele, porque foi pra ele mesmo que deixei a papelada necessária. 'A senhora entende, início de ano, nova gestão'. Entendo, claro. Meu dinheiro, por favor.
Já dizia Fox William Mulder: 'Não confie em ninguém'.
'Não, doutora, a senhora não vai perder seu dinheiro. Ele vem junto com o salário de fevereiro'. Esse povo vive de brisa, é? Eu é que vivo em dezenas de realidades ao mesmo tempo, nunca confundi meus personagens, minhas histórias, nunca chamei um de vocês com o nome deles, nem esqueço que tenho aluguel, comida, conta de luz, coisas assim. Vai que o secretário de administração não paga aluguel e se nutre com luz solar. 'E como eu pago meu aluguel e faço a feira, doutor? O último pagamento do benefício do INSS foi no início de dezembro'.
Não sei quem fez o quê, mas só saí de lá com o acordo que meu salário será pago esse mês através de 'empenho' (um termo chique pra pagamento de serviços a terceiros que não prestam serviços habituais à instituição pública) e na mesma época dos meus colegas. 'O erro não foi meu, porque foi com vocês mesmos que eu falei pra assinar logo meu contrato, estava com xerox dos documentos e foto no primeiro dia útil de janeiro'. Pura verdade e eles não podiam mesmo negar.
Se o tribunal de contas suspendeu os contratos, se o funcionário da secretaria de saúde esqueceu de passar a CI pra quem faz a folha de pagamento, problema dele, porque foi pra ele mesmo que deixei a papelada necessária. 'A senhora entende, início de ano, nova gestão'. Entendo, claro. Meu dinheiro, por favor.
Já dizia Fox William Mulder: 'Não confie em ninguém'.
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segunda-feira, setembro 22, 2008
Sim, você solitário leitor (ou solitária leitora) deve andar se perguntando o que aconteceu nos últimos dias. Por que eu ando assim tão 'down'. Como eu só descobri hoje, só agora posso contar: é minha história. Estou escrevendo dois capítulos tão difíceis, tão dolorosos que isso está me abalando. Não, eu não escrevo minha autobiografia. É 'só' uma fic, mas como eu já disse anteriormente, os personagens são reais pra mim e os problemas deles me atingem.
Então você deve se perguntar por que alguém aceita viver assim, vivendo o sofrimento alheio além do seu próprio. A resposta sincera? A minha 'vida errada' é menos dolorosa e me traz mais alegrias. Esses capítulos são só uma fase ruim e eu sei que eles vão ser concluídos. Já na 'vida real', como eu posso saber?
Não, eu não vou publicar minha fic, embora uma ou duas pessoas tenham insistido nisso por causa daquele e-mail do David. É só um exercício literário (e emocional também, como deu pra perceber). Eu realmente não estou pronta pra isso. Nem sei se estarei algum dia.
Bom, deixa eu volta pra tradução de uma história de verdade.
Então você deve se perguntar por que alguém aceita viver assim, vivendo o sofrimento alheio além do seu próprio. A resposta sincera? A minha 'vida errada' é menos dolorosa e me traz mais alegrias. Esses capítulos são só uma fase ruim e eu sei que eles vão ser concluídos. Já na 'vida real', como eu posso saber?
Não, eu não vou publicar minha fic, embora uma ou duas pessoas tenham insistido nisso por causa daquele e-mail do David. É só um exercício literário (e emocional também, como deu pra perceber). Eu realmente não estou pronta pra isso. Nem sei se estarei algum dia.
Bom, deixa eu volta pra tradução de uma história de verdade.
sexta-feira, agosto 22, 2008
Morri e fui pro céu!
Então, essa desocupada que vos fala criou coragem e escreveu pro melhor autor da melhor série da atualidade. E ele, em meio às próprias férias, se deu ao trabalho de responder! Quem vive a suspirar pelos astros de TV e cinema deveria lembrar que quem escreve aquelas frases lindas não são os atores, mas os roteiristas. Acho que vou começar outra lista, intitulada "Meus Davids" (incluindo o Duchovny, que também é roteirista, claro).
Subject: Another Brazilian Fan
Dear Rambo,I’m also a brazilian fan, like Jaciara, Andréia, Aline...CSI saved my life, literally. It’s a long story and not interesting for you. I would just say “Thank you”. Thanks for each episode, for the tenderness, delicacy and love in each scene in the show. I think that I read somewhere it was WP whom invited you for the show. If is true, thanks for him too.Do you read fanfictions? Right now, I’m writing my first fic. Each chapter has a Shakespeare’s sonet :)))
Respectfully,
PS: English isn’t my first or seconde language, you can see.
To: David Rambo
Dear Juliane,Thank you very much for your email. It's interesting to learn of the impact CSI: has had on your life. While I don't read the fanfiction, I'm very happy to hear that yours includes the sonnets. It's amazing that after 400 years, those poems still convey truth and emotion that are absolutely relevant today. I'm sure that Grissom knows many of them by heart at this point, especially Sonnets 28 and 29.
Sincerely yours,
David Rambo.
Não por acaso, esses sonetos estão na história. Afinal, eles são tão GSR!
Subject: Another Brazilian Fan
Dear Rambo,I’m also a brazilian fan, like Jaciara, Andréia, Aline...CSI saved my life, literally. It’s a long story and not interesting for you. I would just say “Thank you”. Thanks for each episode, for the tenderness, delicacy and love in each scene in the show. I think that I read somewhere it was WP whom invited you for the show. If is true, thanks for him too.Do you read fanfictions? Right now, I’m writing my first fic. Each chapter has a Shakespeare’s sonet :)))
Respectfully,
PS: English isn’t my first or seconde language, you can see.
To: David Rambo
Dear Juliane,Thank you very much for your email. It's interesting to learn of the impact CSI: has had on your life. While I don't read the fanfiction, I'm very happy to hear that yours includes the sonnets. It's amazing that after 400 years, those poems still convey truth and emotion that are absolutely relevant today. I'm sure that Grissom knows many of them by heart at this point, especially Sonnets 28 and 29.
Sincerely yours,
David Rambo.
Não por acaso, esses sonetos estão na história. Afinal, eles são tão GSR!
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quinta-feira, julho 17, 2008
E agora, José?
Desanimei. Deve ter sido essa notícia do blog da Andréia.
Antes que perguntem, David Rambo é o melhor roteirista de CSI.
Antes que perguntem, David Rambo é o melhor roteirista de CSI.
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quarta-feira, julho 16, 2008
Então..
Eu comecei a escrever novamente. Compulsivamente, desenfreadamente. E encontrei uma piedosa alma para revisar o texto. Pobre Andréia! Tem sido praticamente um capítulo por dia, com direito a uma tradução muito pessoal de cada soneto de Shakespeare associado ao GSR. Eu, traduzindo Shakespeare! O que CSI não fez comigo...
Entrei no blog da Andréia pra copiar o endereço e me deparo com essa notícia-bomba :William Petersen sai de CSI. Peraí que eu vou ali me descabelar e já volto. É agora que eu finalmente mando um e-mail pro David Rambo!
Entrei no blog da Andréia pra copiar o endereço e me deparo com essa notícia-bomba :William Petersen sai de CSI. Peraí que eu vou ali me descabelar e já volto. É agora que eu finalmente mando um e-mail pro David Rambo!
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terça-feira, julho 08, 2008
Sobre CSI
Devidamente apresentada pelo namorido ("Você vai adorar, se é tão fã da Scully de Arquivo X, é sobre autópsias, evidências, resolução de casos!"), me rendi e comprei uma parabólica (nesta cidade só se assiste à Globo com antena normal). Então eu vi o Grissom (pelamordedeus, o que é aquilo? Eu AMO cabelos grisalhos) e incentivada pela Vicky, que me emprestou o primeiro box, eu caí de quatro. Há dois meses, me rendi de vez, por causa da mesma Vicky, que me emprestou SEIS temporadas que alguém baixou pra ela, as quais eu assisti só parando pra trabalhar e, às vezes, dormir. Então parei de trabalhar de vez e passei a respirar CSI. E descobri que meu amor pelo Grissom e pela Sara não era delírio e que existem outras tantas loucas como eu. E que o movimento tem nome: GSR (GrissomSaraRomance ou GunShotResidue, trocadilho perfeito!).
Ai, saudade de ser shipper em "Arquivo X".
Então a Jorja Fox saiu de CSI, e a série está uma m... E nem venha me dizer que foi a greve dos roteiristas! Acabo de assistir "Two and a half deaths", um crossover com roteiristas de "Two and a half men". Conseguiu ficar pior que "The teory of everything" (do meu querido David Rambo!). O que houve com esse povo? Estão bebendo detergente? Se eu fosse o William Petersen pagava a multa e quebrava o contrato...
Bem faz o meu irmão, que é fã de "Dr. House".
PS (4.3.09): Eu não havia alcançado a real dimensão da 'teoria das cordas' quando escrevi isso aqui, mas ainda acho que David Rambo já escreveu episódios melhores...
Ai, saudade de ser shipper em "Arquivo X".
Então a Jorja Fox saiu de CSI, e a série está uma m... E nem venha me dizer que foi a greve dos roteiristas! Acabo de assistir "Two and a half deaths", um crossover com roteiristas de "Two and a half men". Conseguiu ficar pior que "The teory of everything" (do meu querido David Rambo!). O que houve com esse povo? Estão bebendo detergente? Se eu fosse o William Petersen pagava a multa e quebrava o contrato...
Bem faz o meu irmão, que é fã de "Dr. House".
PS (4.3.09): Eu não havia alcançado a real dimensão da 'teoria das cordas' quando escrevi isso aqui, mas ainda acho que David Rambo já escreveu episódios melhores...
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