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quarta-feira, dezembro 28, 2022
Saudades daqui
Eu sei: sumi por cinco anos. Muita coisa aconteceu desde então. Adoeci mais uma vez por causa do trabalho, pedi demissão novamente. Resolvi não trabalhar mais para os Mais Médicos porque, quando adoeci, me disseram que eu me desligasse ou eles fariam isso por mim. Isso mesmo: o contratado do Mais Médicos não pode se afastar por motivo de doença. Se eles lhe desligarem, você não pode voltar ao programa depois. Eu não queria mais aquilo pra minha vida. O problema é que as prefeituras em Pernambuco não contratavam mais, só queriam médicos pelo Mais Médicos para não pagarem salário. Eu coloquei meu currículo em uma agência de empregos e esperei, esperei. Finalmente, alguém de Santa Catarina me respondeu. Sem outras possibilidades, eu aceitei cruzar o país com duas malas e uma mochila, sem casa alugada, para uma cidadezinha chamada Irani, de dez mil habitantes. Aimée ficou com mamãe.
Fui muito bem recebida e me avisaram que, em três meses, haveria concurso. O lugar é um sonho: medicamentos à vontade, equipe motivada, etc, etc. Fiz o concurso e estou aqui desde então. Passei três anos sem descompensar! Esse ano, recomeçou. Ficou tão sério que a secretária de saúde interveio e resolveram me internar. Um absoluto pesadelo, ficar internada, mas melhorei. Agora estou de volta, muito melhor.
Essa na foto é Maitê.
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sexta-feira, maio 26, 2017
Lá e de volta outra vez
Claro, eu tentei. Mas, depois que o Governo Federal lançou o 'Mais Médicos', as prefeituras não querem mais pagar aos médicos (ou pagam a metade do que antes). Passei um ano desempregada quando deixei o 'Mais Médicos'. Primeiro, porque estava descompensada devido àquela secretária de saúde que, como existe justiça, perdeu o emprego. A prefeita não foi reeleita, diga-se de passagem. Quando eu consegui emprego, numa cidade a 96 Km de casa, só passei 2 meses porque preferiram colocar alguém do 'Mais Médicos' 'apesar do excelente trabalho que a senhora está fazendo aqui, doutora...'. Palavra, foi a melhor equipe com a qual trabalhei. Ou talvez, porque não deu tempo de descobrir os defeitos.
Eu me rendi e me reinscrevi no programa. De cara, fui grossa com a secretária de saúde na entrevista inicial e tive que contar o meu problema. Ela saiu da sala por um tempão, depois me aprovou. Descobri tempos depois que ela falou com a supervisora chefe 'mas ela é bipolar!' e a chefe 'e daí?'. De lá pra cá, eu descompensei gravemente uma vez. Tão gravemente que chamei minha mãe. Eu, que nunca chamo ninguém. Três semanas em mania. O Inferno na terra. Acho que me vinguei por todos os anos da minha mãe, que também tem depressão, gritando comigo. E ela não respondeu nenhuma vez, graças às medicações dela. Coitada. A secretária de saúde só ligava pra saber quando eu voltava ao trabalho. Nunca perguntou se eu estava melhor.
Agora estou no outro extremo, mas sempre lidei melhor com a depressão. A maioria dos bipolares prefere a mania. Eu detesto. Geralmente tenho hipomania, fico 'alegrinha', acelerada e isso já me deixa agoniada. Parece que estou dirigindo em alta velocidade. Eu quero diminuir e não consigo. A mania é pura irritação. Horrível. Ainda bem que tive pouquíssimas crises ao longo da vida. Sou capaz de lembrar de todas, incluindo cada vexame. Sei, inclusive, a causa dessa última crise: a psiquiatra tirou o lítio do esquema a meu pedido. Minha acne piorou muito e isso estava acabando com minha auto-estima, e olha que eu não sou vaidosa. Achei que a causa fosse o lítio e ela concordou em suspender, iniciando outra medicação, que me deixa pra lá de lenta de raciocínio. A pele melhorou, a cabeça não. O jeito é voltar ao esquema antigo. Aliás, quem faz parte do esquema terapêutico há algum tempo é Aimée, muito prazer:
Por alguma razão, ela adora alface e coentro.
Eu me rendi e me reinscrevi no programa. De cara, fui grossa com a secretária de saúde na entrevista inicial e tive que contar o meu problema. Ela saiu da sala por um tempão, depois me aprovou. Descobri tempos depois que ela falou com a supervisora chefe 'mas ela é bipolar!' e a chefe 'e daí?'. De lá pra cá, eu descompensei gravemente uma vez. Tão gravemente que chamei minha mãe. Eu, que nunca chamo ninguém. Três semanas em mania. O Inferno na terra. Acho que me vinguei por todos os anos da minha mãe, que também tem depressão, gritando comigo. E ela não respondeu nenhuma vez, graças às medicações dela. Coitada. A secretária de saúde só ligava pra saber quando eu voltava ao trabalho. Nunca perguntou se eu estava melhor.
Agora estou no outro extremo, mas sempre lidei melhor com a depressão. A maioria dos bipolares prefere a mania. Eu detesto. Geralmente tenho hipomania, fico 'alegrinha', acelerada e isso já me deixa agoniada. Parece que estou dirigindo em alta velocidade. Eu quero diminuir e não consigo. A mania é pura irritação. Horrível. Ainda bem que tive pouquíssimas crises ao longo da vida. Sou capaz de lembrar de todas, incluindo cada vexame. Sei, inclusive, a causa dessa última crise: a psiquiatra tirou o lítio do esquema a meu pedido. Minha acne piorou muito e isso estava acabando com minha auto-estima, e olha que eu não sou vaidosa. Achei que a causa fosse o lítio e ela concordou em suspender, iniciando outra medicação, que me deixa pra lá de lenta de raciocínio. A pele melhorou, a cabeça não. O jeito é voltar ao esquema antigo. Aliás, quem faz parte do esquema terapêutico há algum tempo é Aimée, muito prazer:
Por alguma razão, ela adora alface e coentro.
sexta-feira, setembro 04, 2015
Adeus, 'Mais Médicos'
No dia 22.07.15, a secretária de saúde do município onde eu estava lotada apareceu no posto, acompanhada da prefeita. Eu estava atendendo a portas fechadas e não vi o escândalo que armaram lá fora, humilhando a enfermeira e o resto da equipe. Depois vieram atrás de mim, cobrar pelas faltas dos dias da pós (que foram autorizadas pela própria secretaria!) e outras coisas que nem vale a pena explicar. Mesmo porque eu não consegui abrir a boca, porque era sempre interrompida e ainda fui taxada de insubordinada com a hierarquia. 'Quer saber de uma coisa? Eu estou saindo. Neste instante. Antes que eu me suicide'. Aí vem a prefeita, supostamente enfermeira, me dizer que eu pense direito.
Ainda passou-se um mês, comigo pedindo ao supervisor que me desligasse, e ele insistindo em me transferir. Eu sem conseguir o formulário de desligamento e lidando com a lentidão da burocracia em Brasília, até saber o que e pra onde enviar pra me ver livre. Espero que o pesadelo tenha terminado. Mesmo sem emprego, sem ter tido um paciente na clínica no mês de Agosto, ainda constando como 'ativa' naquela secretaria de saúde pavorosa, minha gastrite se foi. Um monte de coisas se foi. E não vão voltar.
Ainda passou-se um mês, comigo pedindo ao supervisor que me desligasse, e ele insistindo em me transferir. Eu sem conseguir o formulário de desligamento e lidando com a lentidão da burocracia em Brasília, até saber o que e pra onde enviar pra me ver livre. Espero que o pesadelo tenha terminado. Mesmo sem emprego, sem ter tido um paciente na clínica no mês de Agosto, ainda constando como 'ativa' naquela secretaria de saúde pavorosa, minha gastrite se foi. Um monte de coisas se foi. E não vão voltar.
sexta-feira, julho 24, 2015
Ainda sem chorar
Ontem, voltei ao posto pra fechar a produção. A dor de ler a história de cada pessoa que atendi nos três últimos dias, de ver escrito 'retorno em...' e saber que essa pessoa não vai ter um médico para reavaliá-la quase acabou comigo. E eu não chorei, e meu estômago não doeu. Dessa vez, eu fiz meu trabalho, recolhi meu calendário pintado por pés e bocas, peguei o lanche que tinha esquecido no dia anterior e fui-me embora.
Hoje, eu limpei o mato da entrada que crescia há meses, pensando em alternativas de suicídio, investimento na clínica particular ou transferência pra outro município. Varri a casa. Troquei os lençóis da cama, tentei falar com o marceneiro pra instalar a porta do corredor que espera há meses, arquivei as contas, inaugurei a colcha de sofá que meu irmão comprou de encomenda pra mim, molhei as orquídeas, coloquei o lixo pra fora. Dormi, dormi, dormi. Organizei o fichário eletrônico dos pacientes da clínica, fiz a lista de tarefas pra amanhã, tomei meus remédios. Nada que indique uma descompensação.
Tudo que eu queria era ficar atendendo num sítio perto de casa. Outros querem ser grandes e famosos. É crime querer tão pouco?
Hoje, eu limpei o mato da entrada que crescia há meses, pensando em alternativas de suicídio, investimento na clínica particular ou transferência pra outro município. Varri a casa. Troquei os lençóis da cama, tentei falar com o marceneiro pra instalar a porta do corredor que espera há meses, arquivei as contas, inaugurei a colcha de sofá que meu irmão comprou de encomenda pra mim, molhei as orquídeas, coloquei o lixo pra fora. Dormi, dormi, dormi. Organizei o fichário eletrônico dos pacientes da clínica, fiz a lista de tarefas pra amanhã, tomei meus remédios. Nada que indique uma descompensação.
Tudo que eu queria era ficar atendendo num sítio perto de casa. Outros querem ser grandes e famosos. É crime querer tão pouco?
quarta-feira, julho 22, 2015
Sem lágrimas
Hoje eu recolhi tudo e pedi transferência do município. Deixei bem claro à gestora do porquê, consegui ignorar a maioria das ironias, apesar de ficar tremendo, é só voltarei lá porque tenho que fechar a produção. Sem produção não tem salário. Depois, ocorreu-me que ambas foram propositalmente me interrogar sobre os dias que faltei por motivo de doença pra puxar assunto após assunto até acontecer o que aconteceu. Quem sabe é o que eu preciso pra enfrentar a clínica de uma vez.
O interessante é que eu não chorei nem uma vez.
O interessante é que eu não chorei nem uma vez.
sábado, julho 11, 2015
Alívio II
Uma vez eu falei que precisava encontrar um serviço de clínica oncológica com boa vontade, pra atender os pacientes rápido. E encontrei! Mês passado, uma paciente minha apareceu com uma mamografia sugerindo um câncer de mama e, pra complicar, a mamografia já estava com seis meses! É uma paciente jovem, que toda vez que faz mamografia dá alteração, então precisa fazer o exame a cada seis meses (e não a cada ano), mas o hospital demorou a dar o laudo e quando ela recebeu eu estava de licença-médica, depois de férias (eu tenho direito a férias!) e só agora eu vi a tal mamografia. Entrei em contato com um colega oncologista, mas ele não atende mais em Recife e me indicou o Hospital do Câncer de Pernambuco. Para minha surpresa, a responsável pela marcação de consultas na secretaria de saúde disse que eles têm um programa de triagem que atende na mesma semana. E a paciente foi, mesmo, atendida dois dias depois! Minha alegria não é maior porque o hospital-escola onde estudei teve que suspender os tratamentos de quimioterapia por falta de verba. E como ele, existem outros.
quinta-feira, janeiro 22, 2015
sexta-feira, janeiro 16, 2015
Reconfigurando
Claro que as fotos de ontem foram pra um blog de mau gosto que faz propaganda da prefeitura, acompanhadas de informações erradas sobre minha pessoa (eu dou plantão? Nunca dei plantão naquela cidade), com os NOMES dos pacientes e do sítio visitado. Eu não gostaria que meu endereço, foto minha e da minha casa (não se pediu permissão pra foto de casa) aparecesse num blog da prefeitura, dizendo que eu estava sendo consultada em casa. Foto anônima é diferente, mas... Não podia dizer 'não' porque ele perguntou à tecnica de enfermagem se podia tirar as fotos dela atendendo (e não à mim). Eu nao quis complicar a situação dela, que está grávida, eu soube hoje. Tudo é motivo pra demissão. Nem me ocorreu dizer que era anti-ético ou quebrava o sigilo. E eu NUNCA vou conseguir convencer os motoristas que a visita é nossa, não deles. O homem só não entrou e fotografou a troca de uma sonda urinária porque eu disse, antes dele pedir uma foto do paciente 'essa o senhor não pode fotografar'. Porque era bem capaz dele pedir pra fotografar o procedimento. Ou não, ele foi tão educado. Eu é que estou de saco cheio com a prefeitura, a secretaria, o calor e o mundo quase todo. Pedi uma vassoura hoje e me disseram que precisa falar com a SECRETÁRIA DE SAÚDE. Precisa de um requerimento em três vias também?
Então, eu acabei corrigindo as informações sobre mim e quando enviei o comentário, descobri que havia postado como 'Odessa Valadares'. Ma-ra-vi-lha, o cara vai jogar esse pesudônimo no Google e ler tudo sobre a secretaria no blog. Vou ser despedida duas vezes em menos de um ano - eu contei isso? Contei que perdi a festa de 100 anos da Escola? Contei que perdi um casamento esses dias porque passei mal de raiva? - por causa do que falo. Tive que 'privatizar' o blog nas configurações.
Já que havia comentado mesmo, fui comentar sobre o nome das pessoas e, surpresa(!), o primeiro comentário não havia aparecido, nem havia moderação (aparentemente). Excluí o que havia comentado (esqueça 'Odessa Valadares', senhor blogueiro), mas vou manter o blog privado, just in case.
Então, eu acabei corrigindo as informações sobre mim e quando enviei o comentário, descobri que havia postado como 'Odessa Valadares'. Ma-ra-vi-lha, o cara vai jogar esse pesudônimo no Google e ler tudo sobre a secretaria no blog. Vou ser despedida duas vezes em menos de um ano - eu contei isso? Contei que perdi a festa de 100 anos da Escola? Contei que perdi um casamento esses dias porque passei mal de raiva? - por causa do que falo. Tive que 'privatizar' o blog nas configurações.
Já que havia comentado mesmo, fui comentar sobre o nome das pessoas e, surpresa(!), o primeiro comentário não havia aparecido, nem havia moderação (aparentemente). Excluí o que havia comentado (esqueça 'Odessa Valadares', senhor blogueiro), mas vou manter o blog privado, just in case.
Ser pau pra toda obra
Contei que tem três dias que tento fazer visitas pros pacientes? Terça e quinta são dias de visita, mas continuamos sem motorista fixo (não lembro se postei, mas demitiram enfermeira e motorista no início de dezembro). Não mandaram ninguém na terça, nem uma desculpa, e deixamos de marcar consultas à tarde porque faríamos visitas. Acabei indo socorrer alguém num carro particular e não voltei pro posto porque, se não foram me buscar pras visitas, será que se lembrariam de me pegar no fim do expediente? Saí mais cedo, mesmo sem querer.
Na quarta, tive reunião com meu supervisor e só depois de mais de duas horas que a reunião acabou, apareceu um carro pra me levar, com um motorista que estava dirigindo desde as duas e meia da manhã. Com pena dele (e com medo), fiz apenas a visita mais urgente, entreguei a pilha de receitas controladas que fiquei fazendo nas duas horas enquanto esperava pelo carro e dispensei o rapaz meia hora antes do fim do turno. Eu ia deixar ele dirigindo sem dormir até nos acidentarmos?
Quinta é dia de visita, não tem atendimento no posto. Já não teve na quarta por causa da reunião e do atraso do carro. Não avisaram ao motorista das visitas. 'Vão mandar um carro' significou esperar até mais de meio-dia! E eu fazendo receita controlada (o que conta como atendimento, mas quem vê, pensa que não estou fazendo nada). Fizemos as visitas mais importantes, mas o rapaz que veio nem é motorista, é chefe da limpeza! E ainda veio tirar foto pro blog da prefeitura, da gente trabalhando (provavelmente pra usar em nome da prefeitura). Odeio isso.
Sem falar que desde que estou sozinha eu tenho que, além de conseguir carro todo dia, tenho que providenciar vacina, medicação, água mineral, impressos, conserto de bomba d'água, material de limpeza e, que saber? O contrato diz que eu deveria ter um carro me buscando em casa. Vou reler aquela porcaria e dizer que só trabalho se for assim.
Na quarta, tive reunião com meu supervisor e só depois de mais de duas horas que a reunião acabou, apareceu um carro pra me levar, com um motorista que estava dirigindo desde as duas e meia da manhã. Com pena dele (e com medo), fiz apenas a visita mais urgente, entreguei a pilha de receitas controladas que fiquei fazendo nas duas horas enquanto esperava pelo carro e dispensei o rapaz meia hora antes do fim do turno. Eu ia deixar ele dirigindo sem dormir até nos acidentarmos?
Quinta é dia de visita, não tem atendimento no posto. Já não teve na quarta por causa da reunião e do atraso do carro. Não avisaram ao motorista das visitas. 'Vão mandar um carro' significou esperar até mais de meio-dia! E eu fazendo receita controlada (o que conta como atendimento, mas quem vê, pensa que não estou fazendo nada). Fizemos as visitas mais importantes, mas o rapaz que veio nem é motorista, é chefe da limpeza! E ainda veio tirar foto pro blog da prefeitura, da gente trabalhando (provavelmente pra usar em nome da prefeitura). Odeio isso.
Sem falar que desde que estou sozinha eu tenho que, além de conseguir carro todo dia, tenho que providenciar vacina, medicação, água mineral, impressos, conserto de bomba d'água, material de limpeza e, que saber? O contrato diz que eu deveria ter um carro me buscando em casa. Vou reler aquela porcaria e dizer que só trabalho se for assim.
terça-feira, setembro 23, 2014
Alívio
Às vezes, quando há boa vontade de todas as partes, o SUS funciona e no tempo devido. Minha paciente pediátrica veio há uns dez dias com perda de peso, duas infecções respiratórias em menos de um mês e equimoses sem trauma. Tem uma meia-irmã que teve leucemia. O IMIP, centro de referência pediátrica no estado, mandou uma equipe de oncologia, de cidade em cidade, no início do ano, orientando as equipes dos postos como proceder em casos assim, pra não perder tempo. Telefonei pra lá, falei com uma oncologista e a menina só não foi no dia seguinte porque era fim de semana. Passou a semana por lá, fazendo exames e voltou hoje. Não é câncer.
Preciso encontrar um serviço com essa boa vontade pros adultos também.
Preciso encontrar um serviço com essa boa vontade pros adultos também.
sábado, setembro 13, 2014
Vida fora de prumo
Minha casa nunca foi impecável, mas era quase. Há muito, muito tempo não é assim. Estou em uma fase em que lavo louça uma vez por semana. Arrumo a cama todo dia, mas é só. Também consigo colocar a roupa pra lavar uma vez por semana, mas só passo o mínimo, já que procuro comprar peças que não precisam passar. Quando consigo arrumar o quarto, não restam forças pra varrer a casa. A área de serviço está um pesadelo e as plantas sobrevivem graças à chuva. No meio desse caos, prazos da pós, incluindo um TCC para 'defesa de título de especialista em saúde pública'. A simples perspectiva de eu ter um título de especialista nisto, num curso à distância, quando não li quase nada do material sugerido e tirei um monte de notas altas, já mostra a qualidade da pós.
sexta-feira, setembro 12, 2014
Ser pediatra
Não quis fazer pediatria porque tenho pena de ver criança doente. Hoje, tive que dizer a alguém de 13 anos que nunca mais ela vai poder comer açúcar e que ela vai ser furada todos os dias. Depois, atendi alguém que mal aprendeu a andar e que está com suspeita de leucemia. Saí do trabalho e encontrei outra que ainda nem anda e que quase morreu de desidratação por diarréia e pneumonia, com mãe negligente, e que já teve outra pneumonia depois da alta e não está ganhando peso como deveria.
Em todos esses anos de prática médica, perdi uma paciente com 16 anos, que já estava em estado terminal quando a conheci, com câncer de ovário e um recém-nascido, que já estava com septicemia quando me pediram para socorrer. Uma vez, tive que dar a notícia da morte de uma menina pra mãe. Eu era só a clínica do plantão e ela ficou tão agressiva que precisamos chamar a polícia. Eu entendi, de verdade. A menina havia sido levada várias vezes à emergência da cidade em que vivia e não fizeram nada. Agora estava morta e a mãe estava revoltada, chutando as portas. Eu tive vontade de me juntar a ela, pra ser sincera.
Não, eu não nasci pra ver crianças doentes. E, definitivamente, não consigo vê-las mortas.
Em todos esses anos de prática médica, perdi uma paciente com 16 anos, que já estava em estado terminal quando a conheci, com câncer de ovário e um recém-nascido, que já estava com septicemia quando me pediram para socorrer. Uma vez, tive que dar a notícia da morte de uma menina pra mãe. Eu era só a clínica do plantão e ela ficou tão agressiva que precisamos chamar a polícia. Eu entendi, de verdade. A menina havia sido levada várias vezes à emergência da cidade em que vivia e não fizeram nada. Agora estava morta e a mãe estava revoltada, chutando as portas. Eu tive vontade de me juntar a ela, pra ser sincera.
Não, eu não nasci pra ver crianças doentes. E, definitivamente, não consigo vê-las mortas.
domingo, agosto 31, 2014
?
Eu aguento o sábado inteiro a secretaria de saúde me mandando ligar pra ela, não atendendo a ligação, me fazendo passar mensagem, mandando mensagem em péssimo português dizendo que estou desligada do município e não do Mais Médicos, ligando pra mim e dizendo que 'o telefone estava no silencioso' (se você marca hora pra receber ligação, isso não existe). Me garantindo que já tem um médico pra me substituir na segunda-feira, então não existe risco daquela criança de risco ficar sem assistência. Depois manda outra mensagem perguntando se a prefeita pode ligar pra mim. Acabando, em suma, com minha ida ao almoço das ex-alunas no centenário da ED. Então, hoje à noite, ela manda outro sms dizendo para nos reunirmos amanhã e resolvermos 'esse impasse'.
Oi? E a paciente psiquiátrica sou eu...
Oi? E a paciente psiquiátrica sou eu...
sábado, agosto 30, 2014
segunda-feira, agosto 25, 2014
Ultimato
Um fim de semana inteiro organizando todas as referências bibliográficas. Sabe aquelas regrinhas insuportáveis da ABNT? Autor vírgula inicial ponto título do artigo em itálico etc, etc. Vinte e quatro referências, a maioria em inglês. O programa deu pau, a suposta orientadora não respondeu até uma hora dessas e o prazo é até hoje, meia-noite. Pra mim, é perfeito. Eu nunca quis essa pós. Desde que eu possa continuar no emprego, ótimo. Se não puder, tudo bem também. Contanto que alguma coisa se resolva, pra mim está tudo bem.
É difícil explicar como eu consigo levantar quase todos os dias. Por enquanto, é um idoso que lembra muito meu avô e que tem sido negligenciado pela família. Ele tem um monte de problemas graves que só fazem piorar porque a família não se mexe. Hoje, confirmei que uma idosa alcoolista, que está sem beber há mais de meio ano, está com câncer, mas tem tudo pra ficar curada. Fui eu quem viu a lesão e encaminhei-a para o especialista.
Só quem trabalha na saúde pública entende o que é amar e odiar em partes iguais esse trabalho. Ter que prescrever benzetacil para uma criança porque não tem cefalexina, que a mãe não tem condições de comprar. Convencer uma gestante a fazer um sumário de urina particular porque ela pode ter um abortamento se esperar pelo exame 'urgente' do SUS. Só quem trabalha na saúde pública entende por que eu vivo descompensando e não consigo emagrecer, por que precisei de mais de dez anos pra começar uma pós e não tenho nenhum estímulo para terminar algo em saúde pública, por que todo dia eu chego em casa e não consigo fazer mais nada além de fugir pra outra realidade que não essa.
É difícil explicar como eu consigo levantar quase todos os dias. Por enquanto, é um idoso que lembra muito meu avô e que tem sido negligenciado pela família. Ele tem um monte de problemas graves que só fazem piorar porque a família não se mexe. Hoje, confirmei que uma idosa alcoolista, que está sem beber há mais de meio ano, está com câncer, mas tem tudo pra ficar curada. Fui eu quem viu a lesão e encaminhei-a para o especialista.
Só quem trabalha na saúde pública entende o que é amar e odiar em partes iguais esse trabalho. Ter que prescrever benzetacil para uma criança porque não tem cefalexina, que a mãe não tem condições de comprar. Convencer uma gestante a fazer um sumário de urina particular porque ela pode ter um abortamento se esperar pelo exame 'urgente' do SUS. Só quem trabalha na saúde pública entende por que eu vivo descompensando e não consigo emagrecer, por que precisei de mais de dez anos pra começar uma pós e não tenho nenhum estímulo para terminar algo em saúde pública, por que todo dia eu chego em casa e não consigo fazer mais nada além de fugir pra outra realidade que não essa.
quinta-feira, agosto 21, 2014
Ser palhaça
Você explica e explica à agente de saúde que só tem condições de atender 20 pessoas, e ela sempre coloca mais gente. Você numera fichas de um a vinte, e hoje foram atendidas QUARENTA pessoas. Ela não sabe, mas foi a última vez que a microárea dela foi atendida por mim.
Estou pensando numa vingança passivo-agressiva. Algo assim: vou na próxima quinta e digo que minha quota já foi atendida, tenham um bom dia, agradeçam à agente de saúde.
Ou, de forma mais profissional, prestar uma queixa, com todos os nomes das pessoas atendidas hoje e encaminhar à supervisora. Vou ficar com uma cópia. Aliás, posso resgatar todos os atendimentos das quintas e provar que a prática é recorrente.
Estou pensando numa vingança passivo-agressiva. Algo assim: vou na próxima quinta e digo que minha quota já foi atendida, tenham um bom dia, agradeçam à agente de saúde.
Ou, de forma mais profissional, prestar uma queixa, com todos os nomes das pessoas atendidas hoje e encaminhar à supervisora. Vou ficar com uma cópia. Aliás, posso resgatar todos os atendimentos das quintas e provar que a prática é recorrente.
quarta-feira, junho 04, 2014
Mais Médicos
A secretaria de saúde pede, novamente, meus documentos e número da conta bancária. Será que agora sai a ajuda de custo? Nem me atrevi a perguntar pra não me aborrecer. Enquanto isso, O Ministério da Saúde, enviou dois emails: no primeiro, informa que o pagamento da bolsa só pode ser feito numa conta salário (por que pagaram na conta corrente até agora?) e pede que eu abra uma, sem ter comprovante de renda. No segundo, pedem o cadastro do NIT (número de identificação do trabalhador), possivelmente pro INSS. Eu tenho NIT há 11 anos, pelo menos e informei o número durante a seleção. Tentei atualizar os dados pelo endereço fornecido no email durante todo o fim de semana e não consegui. Mas falei com o pessoal da prefeitura e eles disseram que podem fazer isso pra mim, basta levar a cópias dos documentos.
domingo, junho 01, 2014
Cantando e dançando
Queria entender por que em certos dias eu acordo tão mal que quase não saio da cama pra ir pro trabalho, mas quando fecho a porta e desço as escadas pra abrir o portão, saio cantando. Sempre. E geralmente dançando. Às vezes temo perder o equilíbrio, inclusive, por causa da labirintite. Mesmo que eu chegue no trabalho e a dor de cabeça comece, que eu fique tão mal humorada que queira morder alguém, eu saio de casa feliz porque vou para aquele lugar. Gosto das pessoas que trabalham comigo e da população que atendo.
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sábado, maio 31, 2014
Mais Médicos
A equipe do posto cansou de pedir as coisas e nunca conseguir. Resolveu colocar tudo no papel. Uma vez que a secretaria de saúde enviou um computador e uma impressora para cada PSF para o recadastramento da população - e que ainda estavam nas caixas - resolvemos usá-los para escrever vários ofícios pedindo o conserto das descargas dos banheiros, a substituição da porta da sala de vacina, aumento na quantidade de alimentos para as refeições, lençóis para as macas, etc. Providenciamos um livro de protocolo também, pra não ouvir que os ofícios não foram recebidos. Rapidinho, veio um ofício - terrivelmente mal redigido e cheio de erros de gramática, como sempre - pedindo detalhes de alguns pedidos e convocando a enfermeira a comparecer perante a secretária. Eu também assinei os ofícios e não fui convocada.
O Ministério da Saúde enviou email avisando que só pode depositar a bolsa numa conta salário, segundo a lei. Por que depositou numa conta corrente até agora? Também pede o meu NIT (que enviei desde a seleção, no meu currículo), ensinando como fazer a inscrição num site que não abre de jeito nenhum. Lá vou eu faltar ao trabalho pra resolver isso. A propósito, se saí da pós de dermato, não continuarei dando 35 horas semanais, se só devo dar 32. São 40 horas semanais, sendo que 8 são em casa, pra fazer a pós de saúde pública. Desde o começo, os médicos cubanos que atuam no mesmo município, simplesmente não trabalham nas sextas-feiras!
O Ministério da Saúde enviou email avisando que só pode depositar a bolsa numa conta salário, segundo a lei. Por que depositou numa conta corrente até agora? Também pede o meu NIT (que enviei desde a seleção, no meu currículo), ensinando como fazer a inscrição num site que não abre de jeito nenhum. Lá vou eu faltar ao trabalho pra resolver isso. A propósito, se saí da pós de dermato, não continuarei dando 35 horas semanais, se só devo dar 32. São 40 horas semanais, sendo que 8 são em casa, pra fazer a pós de saúde pública. Desde o começo, os médicos cubanos que atuam no mesmo município, simplesmente não trabalham nas sextas-feiras!
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