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quinta-feira, janeiro 03, 2013

Feliz Ano Novo!

Agora sim, com a gentilíssima indicação de Vicky, que repassou a primeira coluna de Veríssimo depois da alta. Balanço total de vida pra resoluções de Ano Novo.

Desmoronando

Luiz Fernando Veríssimo
Publicado: 3/01/13 - 9h06

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido...” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.

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segunda-feira, dezembro 17, 2012

O amor é cego...

...surdo, doido e imbecil, já disse alguém. Sem querer ofender nenhum deficiente físico ou mental (convivi e convivo com vários, afinal), eu digo que o ditado está certo. Hoje descobri nessa matéria sobre a alta de Veríssimo que realmente foi apenas gripe. GRIPE H1N1!!!!

Quando você quer bem a alguém, acredita no que quer acreditar. Deixei que meu conhecimento de quase seis anos numa enfermaria de doenças infecto-parasitárias fosse enganado por desculpas como 'é a idade' e 'ele é diabético'. Ainda bem que a informação só chegou agora.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

domingo, dezembro 02, 2012

Empatia

Não pode ser coincidência. Minha labirintite piorou violentamente no dia em que recebi a notícia que Veríssimo estava internado em estado grave, além do Niemeyer fazendo diálise e (na época) Joelmir Beting com um AVC. E os sintomas ainda estão aqui, mais leves, porém estáveis, igual ao quadro do Veríssimo, segundo os boletins médicos.
Agora imagine isso com cada paciente.

sexta-feira, novembro 30, 2012

Sei não...

CTI, hemodiálise, cateterismo... Caramba, QUE GRIPE, seu Veríssimo!

segunda-feira, novembro 26, 2012

Ai, Luís Fernando...

"O paciente Luis Fernando Verissimo está acordado e lúcido, interagindo com a equipe e familiares. Tolerou bem a retirada do aparelho de ventilação mecânica, mantendo um bom padrão respiratório. Seu estado de saúde ainda inspira cuidados, necessitando de hemodiálise e monitorização no CTI", diz a nota completa no boletim assinado pelos médicos Alberto Augusto Rosa, Sandro Cadaval e Eubrando Silvestre Oliveira. (Do G1)

sábado, novembro 24, 2012

Estamos torcendo

Bom mesmo


Tem uma crônica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa. Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:
- Vocês ficam ai dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!
O que realmente diferencia os estágios da experiência humana nesta Terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo. Não apenas bom. Melhor do que tudo. Bom MESMO.
Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:
- Conversa. Bom mesmo é mãe.
Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil. A infância é um viveiro de prazeres. Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro da terra úmida e o cheiro de caderno novo?
- Bom mesmo é o cheiro de Vick VapoRub.
Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que nesta fase bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.
Mais tarde a gente se sente na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher (ou prima, que é parecido com mulher), mas no fundo ainda acha que bom mesmo é acordar na segunda-feira com febre e não precisar ir à aula.
Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa. Bom mesmo é sexo!
Esta fase dura geralmente até o fim da vida, mesmo quando o sexo precisa disputar a preferência com outras coisas boas (“Pra mim é sexo em primeiro e romance policial em segundo, mas longe”). Quando alguém diz que bom mesmo é outra coisa, está sendo exemplarmente honesto ou desconcertantemente original.
- Bom mesmo é figada com queijo.
- Melhor do que sexo?
- Bom...Cada coisa na sua hora.
Com a chamada idade madura, embora persista o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teórico, do sexo, as necessidades do conforto e os pequenos prazeres da vida prática vão se impondo.
- Meu filho, eu sei que você aí, tão cheio de vida e de entusiasmo, não vai compreender isto. Mas tome nota do que eu digo porque um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.
E esta é a trajetória do homem e seu gosto inconstante sobre a Terra, do colo da mãe, que parece que nada, jamais, substituirá, à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável, se não é igual, é parecido. E que bom, mas bom MESMO, é nunca mais ser obrigado a ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.

(Luiz Fernando Veríssimo)

Sei...

Estresse não é bom pra quem é bipolar, não é bom pra quem tem labirintite. E o Veríssimo na UTI, o Niemeyer fazendo diálise...

quarta-feira, abril 20, 2011

Desaniversário

Ontem foi meu desaniversário, e alguém lembrou! Imagine receber isso, do nada:





Como já comentei aqui, costumo enviar fotos de flores pros meus correspondentes mais frequentes, ou fotos de paisagem, ou poemas. Evito textos tipo 'spam', mas gosto de enviar crônicas do Veríssimo. Até ebooks, do Domínio Público, se for o caso.

E você, anônimo leitor? Quando fez uma surpresa a alguém?

terça-feira, abril 13, 2010

Pra última hora

(em 13.04.10)
Detesto deixar as coisas pra última hora. Absolutamente detesto. É certo que às vezes não tem como, principalmente quando se depende dos outros. Então, quando um compromisso meu fica pra última hora, e só dependendo de mim, dá pra imaginar como eu fico. É, isso mesmo. Eu fico de cara feia pra mim mesma.

Dessa vez, é um pouco mais complicado. O compromisso é e não é apenas meu. Tenho que entregar, hoje, uma crônica. Com um tema específico e que conheço pouco. Pra completar, é sobre um assunto que eu não quis acompanhar de perto pra não me desesperar junto. Portanto, eu não tive uma semana nada fácil, desde que recebi a solicitação.

Digo que o compromisso é e não é apenas meu, porque escrever bem depende de técnica, e eu uso muito minha inspiração ao invés disso. Bem diz o sábio Luís Fernando Veríssimo, que a gente deve escrever todo dia, pra não perder a prática. Eu escrevo todo dia, mas não tenho tema específico. Fico à mercê da minha inspiração e ela não está colaborando dessa vez.

Agora, o prazo está chegando. Eu tentei, realmente, bolar alguma coisa durante a semana. Li sobre o assunto, pesquisei na internet, sondei a opinião geral, imaginei alguma correlação com minha realidade, e só aparecem frases soltas. O pior é que as poucas que apareceram vieram em algum momento em que eu simplesmente não podia parar pra escrevê-las. E olha que eu ando com papel e lápis desde sempre.

Eu acho fabuloso quem consegue condensar numa frase, numa cena, numa imagem, um sentimento, uma idéia. Eu não sou assim. Gosto dos detalhes, da interpretação, de encontrar um terceiro lado. Não que exista um modo perfeito pra se descrever algo, mas os mínimos detalhes muitas vezes são desnecessários, além de incômodos. Eu gostaria de saber dispensá-los de vez em quando, dizer que fossem dar uma volta, enquanto eu contava o que é realmente importante. Posso tentar, mas não dessa vez. Preciso dos detalhes pra preencher o limite estabelecido de 3000 caracteres.

Resolvi, portanto, que vou fazer a tarefa sozinha, sem inspiração mesmo. Se ela resolver aparecer pra ajudar, tudo bem, mas é hora de aprender a não contar com ela. Muitos escritores dizem que é preciso saber escrever bem, e não é necessário inspiração pra isso. Sempre achei essa afirmação um exagero, mas parece que estou em vias de confirmá-la. Vamos ao texto.

domingo, setembro 13, 2009

A arte de ter tempo

As pessoas vivem sem tempo. Eu costumava dizer que o dia deveria ter trinta horas, como o Unibanco (eles dizem que estão 24 horas com o cliente, além das seis horas em que a agência fica aberta). Hoje em dia eu sei que o dia tem horas suficientes, assim como muita gente ganha o bastante pra viver. Não todo mundo, mas muita gente não sabe é administrar o tempo ou o dinheiro que tem. Eu tenho essa amiga. Ela é tão ocupada que quando eu vou a Recife pra consulta médica, marco um almoço com ela entre os dois turnos de trabalho dela. Como a consulta é marcada com dois meses ou mais de antecedência, o almoço é igualmente marcado na minha agenda com a mesma antecedência.

Sabe quantas vezes Vicky faltou comigo? Nenhuma. Houve uma época em minha vida em que eu, com posto de saúde, plantão, família, companheiro, cachorro e casa pra cuidar era menos ocupada que Vicky, com um monte de turmas de alunos, aulas particulares, curso de pós-graduação e vida pessoal. Acho até que ela ganhava mais que eu, ela professora de inglês, eu médica. Nunca perguntei. As horas que passamos juntas são muito valiosas pra gente perder tempo falando de quanto ganha. Vicky sempre tem tempo pra mim, seja pra tomar um café demorado ('mas agora eu tenho que ir'), seja pra um almoço de três horas, seja pra ver o penúltimo filme do Harry Potter. Fernanda é outra, ocupada e com tempo. A mãe dela também. Fal, nem se fala. Minha amada e distante Geórgia também. Eu marco meu encontro com Geórgia com um ano ou dois de antecedência, acredita? Mas quando essas pessoas estão comigo, seja pessoalmente, seja pela internet, estão comigo.

Gente ocupada tem tempo porque sabe se organizar. Isso também vale pra dinheiro. Hoje eu ganho bem menos e vivo melhor, em todos os aspectos da minha vida. Todos. Porque aprendi a viver com vagar pra não viver com remorso. Já disse isso aqui? Da vida eu quero levar tudo, menos remorso. Pronto, agora tá dito. Vicky me mandou um texto esse mês, via email. Ela não costuma me mandar textos assim, mas eu indiquei 'De ressaca', do Luís Fernando Veríssimo e ela me devolveu com esse, que aliás, é a cara dela. Se é do LFV (eu fiquei, 'o que é LFV?', quando vi o título do email), não sei, mas alguém havia me enviado isso antes do bug do HD e eu fiquei muito satisfeita em ter novamente. Deve ser dele, porque ele adora comer, adora bater papo com os amigos e o estilo é bem a cara dele (Por vias das dúvidas, se não é, perdoe o autor, e me avise pra eu dar os devidos créditos).

Por isso, eu estou me arrancando do meu interiorzinho pra ir dar um abraço em Vicky antes que ela fique tão ocupada em Londres como Geórgia em Southhampton e eu não possa vê-la novamente. As chances de me ter dentro de um avião pra qualquer lugar são pequenas. Eu viajo em espírito e Vicky sabe o quanto eu ando viajando nos últimos dois meses. Na pior época da minha vida, Vicky teve tempo pra mim (dessa vez, Geórgia não saiu de onde estava e me levou com ela, como fez antes, mas afinal, a Inglaterra não é pertinho como o Rio Grande do Norte, né? Da outra vez, Doda também tinha os compromissos dela, mas me levou pra casa dela pra me fazer companhia. Coisa de irmã de alma). E aí, professora, jantar?



'The British are coming', de Jack Vettriano.

Exigências da vida moderna - Veríssimo


Exigências da vida moderna (quem agüenta tudo isso??)
Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.
E uma banana pelo potássio.
E também uma laranja pela vitamina C.

Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água.
E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).

Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
Uma taça de vinho tinto também.
Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra.
Muita, muitíssima fibra.
Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada.
Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia.

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito.

As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia.
Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.

Ah! E o sexo.
Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina.
Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução.
Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico.

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.

Na minha conta são 29 horas por dia.

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!!

Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais.
Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher.

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.

Agora tenho que ir.

É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.

E já que vou, levo um jornal...

Tchau....

Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.

Luís Fernando Veríssimo

domingo, maio 24, 2009

Ser leitora

Vi esse cartaz e adorei. Clique em cima para ver os detalhes do 'sanduíche'.



Poucas imagens descreveram tão bem um sentimento. A palavra 'bookworm' parece-me mais precisa que a equivalente 'traça', que é como apelidam gente como eu. Como bem disse Suzi:

Bibliotecas e livrarias me provocam uma sensação conflitante. Amo tudo: as cores, os cheiros, as formas, mexo no que posso, folheio, aliso e levo o que me é possível sempre que possível.
Mas sempre me angustio em saber que jamais lerei tudo. Por outro lado me agrada e conforta o fato do "tudo" estar por ali. Ao alcance das mãos e às vezes do bolso.


Há algum tempo, Vicky comentou sobre livrarias que ela conhece em Londres e outros lugares do mundo. Talvez por isso, 'O Leitor' tenha me tocado tão profundamente. Fernanda indicou-me o filme e eu encontrei o livro. Cada um mostra uma visão da mesma história. No filme, você briga com ele, no livro, fica reclamando dela. Em ambos existe uma cena em que a mulher entra num ambiente cheio de livros. A gente sente o olhar faminto da personagem e acho que foi esse momento que deu o Oscar a Kate Winslet. Eu me sinto exatamente do mesmo jeito quando entro na Livraria Cultura (que me foi 'apresentada' pela mesma Vicky).

(Eu estou muito melhorada! Era assim com qualquer livro, em qualquer biblioteca ou livraria. Deve ser alguma doença que ainda não nomearam, essa compulsão para ler. Veríssimo tem uma crônica sobre isso e revela que chegou a ir ao banheiro do hotel, no meio da noite, para ler 'quente' e 'frio', nas torneiras. Meu tratamento para isso é escrever e ler o máximo possível em outra língua, o que me obriga a ler com atenção e mais devagar. Eu 'pulo' as palavras, na sofreguidão de saber o final da história. Acabo relendo o mesmo livro vezes sem conta e rindo das mesmas piadas, me emocionando com os mesmos fatos)

terça-feira, março 03, 2009

Constatação

Você percebe que sabe fazer algo direito nessa vida quando prefere reler tudo que escreveu na última semana a assistir o episódio inédito de sua série preferida.
Às vezes eu ainda me surpreendo por rir e me emocionar com frases que eu mesma escrevi. Estranho, não?

Eu espero, fervorosamente, que Luís Fernando Veríssimo saiba com é feliz por ganhar a vida fazendo o que gosta. Eu tenho que procurar outro emprego pra manter esse corpo funcionando, porque é o que me prende nesse plano.

Fernando Pessoa tinha razão: a vida sonhada vale menos que a vida vivida? Responda você, anônimo leitor.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Truque novo

'Cachorro velho não aprende truque novo'. Não é verdade, viu? Só precisa mais tempo e paciência, mas o cachorro aprende. O mesmo raciocínio se aplica às novas regras da ortografia.

Desde que assisti uma entrevista com um autor português (acho que foi Saramago, mas não confiem na minha memória, eu esqueci até de nascer) que defendo a mudança. Anônimo leitor, você já leu um livro 'no português de Portugal'? Eu já. 'O Códico DaVinci' ficou pior do que já é, e eu tenho uma boa cultura. Boa o suficiente pra saber que 'telemóvel' é 'celular' e adoro Camilo Castelo Branco, mas quando um livro atual parece tão indigesto quanto 'Os Lusíadas', escrito há séculos, há algo de errado com a língua.

Você lê autores ingleses e americanos e não se atrapalha, lê autores franceses e canadenses sem confusão, por que eu sou brasileira e não me entendo com a literatura portuguesa? A reforma é necessária, mas chata. Eu nunca aprendi as regrinhas de acentuação, de conjugação, etc, etc (é agora que Fal me corta do caderninho dela, desculpa professora). Falo e escrevo certinho porque devoro livros e outras publicações de manhã à madrugada, com literatura de boa qualidade.

Mas... até o novo word chegar por aqui com o revisor ortográfico, eu continuarei escorregando nas novas regras. Como você, raro e anônimo leitor, deve ter aprendido as mesmas regras que eu, nós nos entendemos. Tá, eu nunca tive paciência pro trema (agora os puristas me excomungam) e nunca soube o que tinha hífen (quando aprendi, mudaram a regra), mas 'veem' é esquisito demais. O que será que pega dessas regras? A população segue o que lhe convém e não porque está nos livros. Se a regra for sensata, eu aceito, senão, fico com Luis Fernando Verissimo: "A gramática tem que apanhar todos os dias para saber quem manda"

P.S.: Reconheço a qualidade do enredo de 'O Código DaVinci', mas o autor não sabe prender o leitor. Demorei UM MÊS lendo aquilo. UM MÊS! 'A Ordem da Fênix', com tamanho similiar, foi lido em nove horas. Por isso, Rowling está mais rica que Brown.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Saudade

As sem-razões do Amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Tem dia que me bate uma saudade... Saudade de gente que nunca me viu, gente que morreu sem saber da minha existência, mas que marcou minha vida. Drummond foi assim. Neruda, Quintana, Vinícius (sinta a intimidade!). É por isso que eu ainda vou encontrar o Veríssimo ( O Luís Fernando, bem entendido), a Martha Medeiros, a Bruna Lombardi, o Dr Dráuzio e chamar todo mundo prum almoço qualquer dia, devidamente assistida pela Fal Azevedo (que entende de escrita e cozinha) e pela Cláudia Letti (que entende de escrita e amor). Querendo, pode aparecer por aqui, anônimo leitor, pois será bem-vindo!

sábado, setembro 13, 2008

Objeto de Desejo


Tá, você não conhece a Fal. A senhora Fal Azevedo é a segunda escritora de livros com quem tenho contato nesta existência (a primeira era professora do meu irmão) e uma de minhas escritoras prediletas. Se considerarmos que: 1)eu sou uma verdadeira traça, 2)embora não escolha tanto o que ler, mas sou muito criteriosa com o que reler, 3) eu leio e releio o blog dela e os dois livros já publicados e 4) depois de quase 30 anos lendo de tudo, eu posso dizer o que é bom, o que é ruim e o que é excelente...

... a Fal é maravilhosa! Poucos escritores (vivos e mortos) conseguem captar essas sutilezas do cotidiano como ela. Se reeditarem aquela coleção de crônicas do cotidiano 'Pra gostar de Ler', eu farei petição no Congresso para incluí-la, ao lado de Drummond, Veríssimo, Rubem Braga, Fernando Sabino e afins.

Louca, eu? Eu tomo lítio há mais de dez anos, babe, justamente pra não ficar doida!

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Livros maravilhosos

Chovendo no molhado, claro: "Harry Potter e o príncipe mestiço". A autora merece cada centavo da fortuna que acumulou (é a mulher mais rica da Inglaterra atualmente, ganhou da rainha). É o melhor dos seis livros da série. Toca a esperar mais um ano pra saber do final da história. Muito obrigada a minha amiga Nádia (sensatos 14 anos) que me cedeu o livro algumas horas sem ter terminado de ler ainda. Exatas oito horas de empréstimo. Há anos que eu não pegava um livro pra ler e simplesmente não conseguia parar até terminar! E isso depois de sete horas de viagem, uma gripe pesada e um plantão de Natal horroroso. Eram três e meia da manhã quando terminei e não me arrependi nem um pouco.
Pra quem curte: a autora conseguiu amadurecer os personagens (afinal, a turminha já tem 16 anos), envelhecer (com as boas e más consequências da velhice) Dumbledore, tornar Snape ainda mais dúbio, os gêmeos mais sensatos e a escola cada vez mais desejável pra nós, simples mortais. Destaque pra atualíssima e plausível cena do primeiro-ministro inglês. Só faltou dizer que aqueles ataques terroristas no metrô foram obra de Voldermort. Quem sabe?

Minha amiga Kátia, aquela de 25 anos de amizade (e tia de Nádia), deve ter cansado de me emprestar "Le Fantôme de Canterville", de Oscar Wilde, que lhe dei de presente
há alguns anos, ou simplesmente reconheceu que amo a história e conseguiu encontrar um exemplar bilíngue! Entre o original em inglês e a tradução francesa, vou curtindo esse e outros contos. Sem falar na vantagem do livro durar mais, uma vez que leio mais devagar (ou na velocidade das pessoas normais) em outra língua. Devo ter sido uma traça em alguma encarnação anterior pra devorar livros dessa maneira.

Na verdade, o presente foi de Doda (irmã de Kati). O presente de Kátia foi "A mesa voadora", do inimitável Veríssimo, que era do meu ex e estava me fazendo uma falta visceral. Uma coletânea de crônicas sobre comida, com destaque pra insuperável "De ressaca", uma das preferidas do ex e a quem agradeço a descoberta.

1o lugar, com mérito, para "Me leva Brasil", do Maurício Kubrusly, presente do irmão querido. Se você, como eu, curte sentar num alpendre de interior e tomar café ouvindo 'causos', vai amar as histórias. Desde que vi a entrevista do Maurício no Jô que fiquei louca pelo livro, talvez pela história de confundirem-no com o ...Pedro Bial! É, de fato, uma gente extraordinária essa dos confins do país. Melhor que essa foi pedirem o autógrafo pro mesmíssimo Kubrusly, chamando-o de Cid Moreira. Só lendo pra aproveitar e curtir.

Como meu irmão me conhece mesmo, só me deu o presente de Natal no Ano-Novo. Primeiro o aperitivo: um bloquinho de notas do Harry Potter, um chocolate e o aviso que o presente só vinha na semana seguinte. Meu irmão, sem dúvida.

Pra ficar beliscando entre esses, "Madame Bovary". Boa descrição de costumes e a prova que o consumismo desenfreado não precisa de cartão de crédito. Além de falta de amor-próprio e consideração ao marido, a moça também sofria de megalomania. Não admira o escândalo que causou quando foi publicado.

Uma vez que só tem Natal uma vez por ano, reconheço que preciso trabalhar mais pra manter meu vício.