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quinta-feira, janeiro 31, 2013

Doce Espera


Quando eu estava no internato de Medicina, prestes a me formar, comprei meu primeiro livro médico. Foi uma compra esperta àquela altura: um manual de clínica médica para médicos recém-formados, com dicas valiosíssimas, úteis até hoje. Uma delas era ‘quando estiver chegando a sua vez de pegar uma parte ruim da escala de serviço, planeje uma diversão para quando estiver desocupado, para poder aguardar por algo ansiosamente durante as longas noites’. Em suma, o melhor de alguma coisa pode ser a espera.

A maioria das pessoas tem alguma lembrança assim de sua infância: um evento marcante, um passeio, algo que foi aguardado e que, quase sempre, correspondeu às expectativas. É preciso entender que parte do que tornou tudo tão bom foram justamente as expectativas. Você imagina como vai ser, você sonha, você passa um filme em sua cabeça. Espere, não é assim que deve ser. Você recria a cena, surgem inúmeras variações, até uma ser escolhida. Tudo está perfeito em sua mente.

Estou falando disso porque uma amiga que nunca viu nem brincou Carnaval resolveu vir a Pernambuco nessa época do ano em que as pessoas parecem mudar ou assumir a verdadeira personalidade. Talvez por eu ter crescido sem ver Carnaval também, exceto na TV, só arrisquei uns passos na adolescência tardia, admiti que como manifestação cultural é ímpar e resolvi aproveitar o feriado pra ler. Dessa vez, eu não poderei fazer isso e vi-me contagiada com a idéia de mostrar ‘o melhor carnaval do mundo’ a alguém que alcançou os 30 anos sem ter visto a festa ao vivo.

‘Vamos fazer isso a sério!’ tem sido meu lema na vida e a ‘Missão Carnaval’ não poderia ser diferente. Pra começar, um roteiro porque Pernambuco tem tanto a se ver que um Carnaval apenas não é suficiente. Uma fantasia me pareceu essencial. Considerando que tomo lítio em altas doses e que, por causa disso, tenho tremores e dificuldade de acomodação visual, cortar e costurar tudo à mão – além de pintar o tecido – foi um desafio que levei com um bom humor que me surpreeendeu. Foram tarefas executadas com lentidão e de forma imprecisa, mas que me ajudaram a passar o tempo que pareceu se arrastar desde que essa aventura foi acertada. Também tem sido maravilhoso planejar um roteiro turístico da cidade onde nasci, mas onde só passei a residir quando vim fazer faculdade. Nunca fiz turismo antes e, pelo visto, essa pode ser a primeira de outras viagens para mim, que viajei muito, mas a trabalho.

Faltam oito dias e está quase tudo pronto: a programação, o cardápio, as sugestões de passeio, as fantasias, as reservas, os telefones de emergência, até a lista de episódios pra ver no dia que vamos ficar à toa. Se pode não dar certo? Claro! Eu não estou me importando muito com o que vai acontecer. Para quê? O perfeito, o impecável, o filme de Hollywood já aconteceu. Os ensaios fazem parte do espetáculo. Agora é pra valer. É hora do show!

quinta-feira, dezembro 13, 2012

A propósito...


'coragem' deveria vir em gotas, em comprimidos, em drágeas de liberação lenta, em pílulas cor de rosa, pros médicos prescreverem.
porque alguns não pensam que em alguns falta insulina, a outros serotonina, melatonina, hemoglobina, e tudo parece apenas... falta de coragem.

quinta-feira, março 08, 2012

Dia de Estrela

Homem no Dia da Mulher?

Hoje, Dia da Mulher, eu dei parabéns a alguns homens. Claro, também dei parabéns a todas as mulheres com quem cruzei na rua, no supermercado e pra carreteira que me ajudou a trazer as compras pra casa. Mas por que dar parabéns a um homem no Dia da Mulher? Porque ele entende mulheres, só isso.

Até este ponto de minha vida, conheci alguns homens que se entendessem com as mulheres. Destes, uns poucos entendem mulheres. Alguns conseguem captar nos gestos, nas falas, nas lágrimas, o que é ser mulher. Mas os outros apenas se entendem bem com mulheres: por necessidade, por atração, por civilidade. E a grande maioria tenta, com mais ou menos empenho, entender esse tão diferente deles, por causa de um simples cromossomo.

Dos homens que eu conheço, existe o que endeusa a musa num poema, mas não aceita as mudanças de humor da TPM dela. Existe o que transforma em melodia a vida de alguma ou de todas as mulheres, mas perde a paciência ao ver uma mulher chorando. Existe o que declarou amor eterno, mas quando ela adoece, é incapaz de passar uma noite no hospital. Existem muitos. Há o que mantém o casamento, mas faz da vida dela um tormento. Há o que valoriza os filhos, em detrimento das filhas. E há, sim ainda há, o que nos vê como seres inferiores, fracos e incapazes de fazer muito.

Por isso, quando eu conheço um homem que entende mulheres, eu sei que encontrei algo raro. Alguns nem percebem o quanto são preciosos, por mais inacreditável que pareça. Conheço um que teve três filhas e depois duas netas, tornando-se virtualmente o único homem nesse pequeno universo, se não contarmos o genro. Foi o primeiro homem que eu vi ajudando em casa e dizia que, se trabalhava na mesma repartição que a esposa, ela chegava tão cansada quanto ele. E imagine: lidar com esposa, três filhas e duas netas. Numa época, as filhas adolescentes, a esposa numa possível menopausa e ele na andropausa. A seguir, duas crianças pra lidar enquanto a filha ia pro trabalho. E todos os meses, o ciclo menstrual de cada uma das mulheres, acrescentando o da empregada, com suas variações de humor! Um homem desses aparece em um milhão.

Minha explicação pra isso é, que se mulheres têm um lado masculino, esses homens raros, muito possivelmente, prestam atenção no seu lado feminino. Entendem que há um momento pra tudo, que é preciso dizer o que sentem porque mulheres não são adivinhas, que só porque uma mulher merece ser tão valorizada quanto um homem, não significa que ambos são exatamente iguais: que homens e mulheres podem diferir em certas habilidades e se encaixar de modo diferente numa mesma profissão.

A esses homens, eu agradeço hoje e sempre, por tornarem nossas vidas mais harmoniosas e felizes. A eles, parabéns Dia da Mulher!

domingo, março 04, 2012

O porquê de um blog



Num mundo que lê o Twitter a cada segundo, alguém pode se perguntar por que ainda escrevo aqui. Bem, alguns passam a vida desejando uma casa própria, eu tenho esse blog.

Esse espaço surgiu da necessidade de reclamar pra não encher a paciência dos que conviviam comigo, mas até onde isso beneficiou os outros, ignoro. Depois passei a reclamar aqui dos que conviviam comigo, aproveitando que eles ainda não conheciam o blog e não uso meu nome. Até que o blog se tornou algo meu, um lugar pra falar tudo que eu queria dizer e ninguém gostava (ou conhecia), na língua que eu quisesse. Como quase ninguém acessa, raros são os comentários idiotas. E postando eu evito muito spam na caixa postal dos meus conhecidos.

Minha intenção nunca foi ter milhares de seguidores, nem usar o espaço pra publicar tudo que consigo colocar 'no papel', ou falar o que bem quero sobre alguém. Quando encontro alguém que não vejo há tempos, aviso que esse blog é a maneira mais fácil de saber como estou indo. Sou mais fiel a ele que às redes sociais, que não domino muito e acho que expõem demais os usuários. Se eu gosto de algum texto, indico aqui. Se escrevo algo que acho que os outros devem ler, posto aqui. No fim, o blog serve como um filtro pra eu saber o que comentar ou não com as poucas pessoas com quem convivo.

Aqui, aceito manifestações de apoio e críticas educadas. Não discuto o mérito de certos pontos de vista, até porque não entendo a razão de alguém acessar e criticar o tempo inteiro um blog não jornalístico. Aqui, nunca aconteceu; mas sei de pessoas que se veem vítimas de verdadeiro bullying por causa de um post. Num antigo blog meu, um dos posts só teve comentários negativos, mas foi um comentário por pessoa. Como o blog era coletivo, eu entendi que era hora de ter meu próprio espaço, igual a uma casa de família, entende? Aliás, quase todos os comentaristas daquele post ainda falam comigo.

Blogs são como casas pros seus donos. Alguns moram neles, outros visitam-nos de quando em vez, mas continuam sendo seus donos. Se você cria um blog onde não recebe ninguém, só pra apreciação pública, você tem uma espécie de museu, e isso deve ser respeitado. Mas se todo mundo entra e sai da sua casa, e faz o que bem quer e entende, isso não é nem república estudantil. Por mais democrático que seja um espaço, ele precisa de regras pra dar certo. Com ou sem moderação de comentários, com ou sem aviso de censura, um blog é um espaço privado, mesmo que o dono não pague por ele.

A meu ver, leitores de blogs deveriam seguir as mesmas regras de educação que convidados na casa alheia: não estender a estadia sem convite, não ser inconveniente, não ofender o dono da casa, não levar nada sem permissão expressa do dono. Enfim, o que se espera de alguém que vêm à nossa casa, quer pela primeira, quer pela centésima vez.

sábado, março 03, 2012

O custo de ser bipolar

Escitalopram 15mg/dia + Lítio 600mg/dia + Bupropiona 300mg/dia + Topiramato 100mg/dia + Mirtazapina 15mg/dia + Estazolam 2mg/dia + Levomepromazina 20 gotas/dia.

Tomar tudo isso só pra seguir vivendo sem querer morrer a cada instante, conseguir dormir, viver lutando contra a balança e ainda sem conseguir trabalhar: R$ 779,71/mês.

Não entra neste cálculo o plano de saúde, nem as idas à capital pras consultas médicas. Não posso incluir nem tão cedo a terapia com psicólogo ou a prática regular de um exercício que me faça sentir bem (caminhar aqui não é terapêutico, a cidade só tem ladeiras). O mero planejamento de voltar a praticar Medicina uma vez por semana me rendeu dias seguidos de enxaqueca. Ah, eu esqueci os 'extras': analgésicos, medicação pra labirintite, antialérgicos (pro caso de ingerir algo com leite acidentalmente), e por aí vai.

Não lembro quando comprei um livro pra mim, não dei nem lembrancinha no último Natal, preciso de ajuda pra limpar o lugar onde moro porque ou eu fico de cama com a dor da fibromialgia ou com o cansaço que uma das medicações me dá. Não, nada de cinema pra essa amante de filmes. Nada de adquirir as temporadas de minha série predileta de TV. Há mais de um ano que vi uma manicure, não lembro quando comprei uma peça de roupa, mas deve ter mais ou menos o mesmo tempo. Anoto cada centavo que gasto e só consigo manter o tratamento porque de vez em quando algum colega me consegue um mês ou dois de alguma medicação.

Eu amava ler, adorava escrever. Alguma vez eu tive fé, o que quer que isso signifique. A doença me roubou a capacidade de sentir qualquer prazer de fato. Nunca fui arroz de festa, mas evito as pessoas ao máximo porque ser portadora de um transtorno de humor não transforma você na melhor companhia. A vantagem disso é que, quando minha hora chegar, não serão muitos a sentir minha falta.

Até onde sei, nem todos os bipolares são assim, mas eu sou. Só imagino como seria se eu fosse bipolar com psicose. Se eu tenho raiva de ser assim? Claro que sim! Se eu já me revoltei e larguei tudo? Perdi as contas das vezes. Mas sempre que eu paro uma das medicações que seja, em pouquíssimos dias, eu percebo que viver pode ser ainda pior. Muito pior. Como na época em que eu ia atrás de médico após médico, dizendo que havia algo de errado comigo desde a infância, e eles não entendiam ou não me ouviam.

Então eu tomo ‘mais bolinhas que o Elvis’ e continuo. Sem coragem suficiente pra morrer, sem forças suficientes pra viver.

domingo, outubro 23, 2011

Um amor antigo ou um amor eterno?

Tem dias - e noites - em que a gente se pega sentindo saudade de alguém. Pode ser um amor antigo, um amor eterno, uma pessoa que foi importante em alguma época de sua vida: colega de turma ou de trabalho, um professor, seu vizinho. Pode ser um personagem cuja existência só significa algo pra você ou um que - como uma pessoa 'real - tem diferentes significados para cada um.


Digo isso porque desde essa madrugada me deu saudade de Grissom. Assim, do nada. Eu não vi nenhum episódio de CSI nos últimos quatro dias, não me lembro exatamente quando assisti algo pré-nona temporada, mas não tem duas semanas, eu acho. Só me veio aquela vontade de saber como ele vai. Depois de anos sem Grissom, hoje deu saudade do bug-man.


Grissom me ganhou por ser esquisito: dedicado ao extremo ao trabalho, com paixão por aprender mais sobre tudo, sem medo de botar a mão na massa, sem fazer política e tendo uma das piores políticas de relacionamento chefe/subordinado já registradas. E o time o respeitava, porque ele aprendeu a respeitar cada um, à maneira dele. Eu poderia dizer que Gil vive num mundo à parte, de tão concentrado no que está fazendo. Sinto falta disso no lab. Ninguém mais se concentra desse jeito.


Desde que ele se foi de Vegas, acho que ninguém mais rompeu a couraça de sarcasmo de Brass. Com quem será que ele fala sobre a filha e os casos difíceis? Apenas com a garrafa de scotch? Sozinho, é melancólico. Com Grissom, era dividir um peso. Falando em dividir, sim, eu entendo o arranjo no casamento dele e Sara, tanto por questões profissionais, quanto pela necessidade de espaço que ambos cultivaram ao longo dos anos. Basta dar um tempo pra Griss se ajustar à nova situação - o que pode levar mais uns anos, veja o tempo que levou pra ele se envolver com Sara e depois pra se casarem! Mas é o tempo de Grissom, não o meu, ou o seu.


Sinto. Sinto falta do meu entomologista citando Shakespeare em cenas de crime, lendo Thoreau no trabalho, conversando com o Dr Robbins, convivendo com Ecklie porque era o jeito. Sinto falta da sala cheia de objetos nunca completamente identificados em todos aqueles anos. Ver aquela sala vazia me balançou, especialmente agora com o novo supervisor. E, quando a gente sente saudade, lembra com carinhos até das pequenas implicâncias. Eu, por exemplo, sempre quis pôr a mão naquele chapéu horrível e excluí-lo dos bens utilizáveis do planeta, exceto como combustível.


Sim, eu adoro perícia. Adoro ciência e o modo como juntam tudo com os motivos, e quase sempre tudo se encaixa - embora passe metade do episódio ou reclamando por algum erro técnico básico, ou deduzindo os resultados. Adoro os ratos do laboratório, tenho os CSI mais antigos como uma família meio doida (como toda família de verdade), mas todo grupo tem uma figura central, uma cola. E eu sempre achei que fosse Grissom. Continuo achando. Mas bem que ele podia aparecer pra uma visita aos velhos amigos.

sábado, julho 09, 2011

Vontade de partir



Pode ser um desejo tardio. Eu nunca tive uma bicicleta. Foi uma escolha consciente. No ano em que todos lá em casa puderam ter uma bicicleta, eu escolhi outro presente, e andava na do meu irmão, quando dava vontade. Verdade seja dita: eu adorava andar de bicicleta e tirava o atraso nas férias, num interior do estado, sem trânsito, onde todo mundo tinha uma bicicleta pra me emprestar.





Quando tive meu próprio dinheiro pra custear uma magrela, morava numa cidade que não permitia o luxo de uma bicicleta. Era comprar e ser roubado. Depois, estava com labirintite ou era o excesso de peso, mas o fato é: não é verdadeiro o ditado 'quem andou de bicicleta uma vez, nunca mais desaprende'. Eu desaprendi, porque tentei várias vezes, no mesmo interior do estado, e tudo que ganhei foram quedas. Agora, eu perdi peso, estou bem do labirinto, mas as ladeiras de onde moro agora competem com as de Olinda. Muita gente aqui declara que, se a cidade fosse um pouco mais plana, teria uma bicicleta. Incluindo eu.







Pode ser saudade da sensação de liberdade, de quase voar, incluindo uma vez numa rodovia, em plena chuva. Pode ser ainda a descompensação da doença, que dá essa vontade de sair andando sem rumo. De uma forma ou de outra, eu me peguei namorando umas fotos essa madrugada.







Quem sabe? Talvez eu reaprenda a andar de bicicleta, saia por aí e não volte mais.

quinta-feira, junho 02, 2011

Prazeres Simples

Teclando ainda agora com Grissom's Girl, saiu-me esta:
'A maioria de tudo, só se percebe a importância quando não se tem'.

É certo que eu falava da falta que a teclinha 'tab' fez-me esta semana. Caiu sem querer e a falta de tempo ainda não me permitiu ir à loja colar - deve ter cola especial pra isso, pensei, ainda mais que o pino caiu no minuto seguinte, e por mais fã de SuperBonder que eu seja, a expressão mais precisa é: 'não rola'. E não, mi hermano não faz milagre à distância, exceto com o telefone e o 'LogMeIn' (xi, cara, tá desabilitado, nem tente).

Como a faxineira está confirmadíssima pra amanhã, eu vou resolver isso. Porque hoje, eu - que nem via muita serventia na tecla 'tab', exceto alternar telas, e isso é importante! - cheguei ao ponto de declarar que "a falta de uma tecla 'tab' faz a pessoa perder tempo e ficar procurando o MSN, o Windowns Explorer, o word, portanto, descobri a função da tecla 'tab'"!.

Isso tudo pra dizer que a tal tecla tab fez-me lembrar dos prazeres simples:








Essa última é do 'Achados de Decoração'.

segunda-feira, maio 30, 2011

Vida

O atendimento pra religar o número da TIM demora tanto que dá tempo de checar o twitter, o email e escrever o post com uma mão só. Liga, atende, dá o número do protocolo e você fica 'alô', sozinha. Liga, dão aquelas infinitas alternativas, você fica homérica da vida, dão o número do protocolo e a moça jura pra você que ligar pro 1056 e aquele não é o número 1056. Eu desliguei e conferi. Era o 1056. Liga, infinitas alternativas, '0, seu ddd, o número do seu telefone, depos disque estrela', número do protocolo... Enquanto isso, adivinha: não tinha conta sumida! Era aquela que chegou na sexta-feira mesmo, só que chegou tão atrasada que pensei que já era outra. Esqueci de conferir os meses. Eu não sou uma bagunceira, só uma desorganizada, tenho salvação e...

Valeu a espera! Primeiro a menina do atendimento (quando a gente começa a chamar a 'menina do atendimento', realmente os anos pesam) era um doce, segundo que tive uma idéia boba e brilhante. Falando com a tal 'menina', percebi que nunca me esqueço de pagar o aluguel e minha desculpa pro atraso com a TIM é que estou dentro de casa, esqueço o passar dos dias. Mas quando estava trabalhando, esquecia (se a a conta não chegava) por causa do corre-corre. O aluguel, não, nunca falta. Pode perguntar à dona da casa. Então veio aquele 'plim!'. Já coloquei um avisão ao lado do computador, já que não saio da frente dele mesmo.

(quando a gente diz que a menina do atendimento era 'um doce' tá na idade de ser avó)

PS, nada a ver com a crônica, se isso for crônica: o irmão daquele meu garoto tá começando a andar e quer aprender a mexer aqui. Dá licença.

sexta-feira, maio 20, 2011

Se realmente o mundo acabar amanhã


(encontrei minha imagem perfeita de ilha deserta, pra onde fujo, quase sempre)


Despedida

19.05.11 18:29h
Interessante: gosto de escrever, mas sou péssima com cartas e cartões. O que se escreve numa carta de despedida? Como se justifica o que se fez? Para as pessoas, é muito fácil criticar, condenar e apontar alternativas depois que tudo aconteceu. Quem sabe a dor, a angústia pelo que passamos? Nunca entendi os que condenam os suicidam, nunca critiquei uma mulher que abortou. Quem sabe o desespero que sentiam? Se podem justificar morte por legítima defesa, porque a pessoa entrou em pânico, por que não tentar entender o outro lado? Não digo aceitar, não digo concordar. Falo de tentar entender.

Alguém sabe o que é acordar repetidas vezes, numa mesma noite, se sentindo à beira da morte? Sonhar com diversos tipos de morte e não lembrar de quase nada, exceto do pavor? Acordar querendo matar quem estava matando você, no sonho? Viver dias e dias se sentindo vítima de agressão sexual, sem ter sido? Apenas sentir a sensação?
Eu como compulsivamente, pra não beber compulsivamente. Eu detesto tomar remédios, e os tomo regularmente, numa tentativa cada vez mais vã de manter a sanidade. Como posso trabalhar como médica, nessas condições?

Eu detesto pedir. Ajuda, dinheiro, uma licença-médica, distância, atenção. Tenho pedido várias dessas coisas ultimamente, mas pode ser a falta de hábito e por isso as pessoas não entenderam a urgência do pedido. Não estou dizendo agora que larguem tudo e venham me resgatar. Perdi a fé em mim, mas rezo pelos outros, peço que rezem por mim. Dá pra entender? Não posso me matar, não por questões religiosas, mas pelo que isso faria a uma pessoa ou duas que ainda se importam, pelo que isso faria a eles e porque poderia piorar a situação deles. Não a minha. Não acredito num lugar separado pros suicidas. São pessoas doentes, desesperadas, em sua maioria. Existem os egoístas, mas acredito que são minoria. A meu ver, assim como nenhuma mulher gostaria de abortar (ela não queria estar grávida), suicidas não querem morrer: só querem que o sofrimento acabe.

A vontade, referida pela maioria dos depressivos descompensados, é de vagar sem rumo. Com as recentes chuvas, eu poderia me oferecer como voluntária em algum lugar, mas não acho que daria certo. Cansei de interpretar um papel, fingir o que não sou. Nunca me encaixei, sempre fui vista como esquisita. As pessoas me olham estranho quando digo que não quero ser médica, e isso inclui minha mãe. Aliás, esse foi um dos maiores motivos pra desistir do meu relacionamento com ela. Acho que as pessoas vão olhar mais esquisito ainda pra alguém bipolar, com ideação suicida, que desistiu de Medicina e de se relacionar com a mãe. Deste tipo de vida também.

Espero que exista outro, porque esse não é pra mim.
18:46h

***

Se realmente o mundo acabar amanhã, vejam a Season Finale de Bones antes. Algo de belo em Bones são as imagens de Washington. Nem vou falar do Booth, é retórico.








Jefferson Memorial, Washington

Indico a Season Finale de CSI também. Senti um clima meio 'Obama/Bin Laden', na análise e interpretação das evidências no caso de Haskel/Langston. Se Haskel era um monstro, e Bin Laden também, vamos justificar tudo?

***
Droga, o mundo vai acabar e eu não vi o último 'Piratas do Caribe'. Jerry vai ter que entender.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Dia de estrela

Hoje é dia mundial do terapeuta ocupacional, amanhã é dia do farmacêutico.
Hoje foi dia de trabalhar além do horário, pegar 'n' transportes pra voltar pra casa. Amanhã é dia de colocar a vida em ordem.
Hoje é dia da desforra com a dieta, depois de três dias loucos. Amanhã é dia de compensar.
Hoje é dia de colocar a correspondência em dia. Amanhã, ler o que aconteceu no mundo.
Hoje é dia de me perguntar quanto tempo eu aguento no emprego e o que estou fazendo tão longe de casa, amanhã dia de organizar a estratégia de estudo pro concurso pra trabalhar pra sempre perto de casa.

Hoje, amanhã. Que diferença faz? Dorothy estava certa:
'Não há lugar como o lar'.

P.S.: hoje é dia de São Sebastião, padroeiro dos homossexuais. Padroeiro daqui também, maior festa.

quarta-feira, julho 28, 2010

Porque a net não permitiu que eu postasse antes

25.07.10

Feliz dia do escritor,

pra você que é viciado em escrever, pra você que escrevia e parou por falta de tempo, pra você que quer ser publicado a todo custo, pra você que tem o nome na capa de um livro, e pros malucos como eu, que não gostam da idéia de ter seu nome na capa de um livro. Se você um dia resolveu colocar no papel ou registrar no Word seus pensamentos ou alguma história legal, você é um escritor.

Escrever é um vício, como ler é um vício. Alguns conseguem escrever regularmente, devido ao hábito. No caso do escritor, a prática leva à perfeição, o excesso leva ao lugar-comum. Não há nada pior que um autor de sucesso que se vê na obrigação de lançar livros regularmente. Ele não tem tempo de criar novas histórias, de pesquisar novos assuntos e fica requentando o que já escreveu. Livro requentado pode até ser bom se o escritor é talentoso, mas não é delicioso, exatamente como a comida de ontem que você repetiu no almoço de hoje.

Ser escritor é descobrir frequentemente que o que você pensava já foi pensado por outro, e escrito. Muitas vezes, de forma melhor que você jamais conseguiria. É entender que raros são os assuntos e enredos que ainda não foram escritos. É aceitar que só outros escritores podem alcançar a dimensão de determinadas obras, e alguns leitores compulsivos, mas esses acabarão escritores um dia, mesmo que não publiquem nada. No entanto, um escritor tem um dom único: ele é capaz de criar mundos inteiros e fugir pra lá quando quiser. Quando ele consegue isso e publica, descobre estranhos no seu próprio mundo, gente que se apaixonou pelo lugar e resolveu ficar também. Se o mundo é uma reinterpretação daqui, ou uma terra imaginária, não importa. Ele encontrou a fórmula da Pedra Filosofal.

O que ainda não se descobriu foi um modo de transmitir esse sentimento para os outros. Só quem escreveu algo sabe como é bom. Eu nunca vou entender por que as pessoas usam drogas. Eu sou viciada em escrever, e em ler o que escrevo. Na verdade, eu sou viciada em ler o que me cai nas mãos. Eu gosto das letrinhas, entende? Aprendi mais de uma língua pelo prazer de saber qual a história. Cada um com seu vício.

Hoje em dia, com o advento da internet, muita gente virou escritora por causa dos blogs. Eu não sei se todo blog pode ser considerado literatura, mesmo porque tem blog com mais imagem que texto. Ainda assim, ter um blog é um exercício valioso. De um post, você pula pra um ensaio, depois outro, se gosta de ficção, escreve um conto, uma crônica, e quando vê, virou escritor.

A única coisa que eu não consigo aceitar é alegar falta de tempo pra escrever. Desligue a TV, por favor! Fique menos tempo na internet, peça licença ao seu marido e às crianças, mas escreva! Você pode pensar no texto enquanto lava a louça, quando vai pro trabalho, ou algo do tipo. Só precisa registrar. Tire 15 minutos pra você e escreva. Nem que seja um diário. Escreva, e um mundo novo se abrirá diante de seus olhos.

(Esse é meu ok? Mais uma vez: não se aproprie, não cite sem os devidos créditos. Faça como a Menina Nina, do Biscoito Doce e cite a autora)

domingo, julho 25, 2010

Ser escritora

Eu escrevi essa no primeiro ano da faculdade, pra uma criança muito especial. Hoje, é uma moça, escritora também. Há alguns anos, ela me retribuiu, oferecendo um conto dela, como presente de Natal. Não me lembro de ter outra história para crianças.

"A BRUXINHA VESGA"

Adélia era a caçula de uma família de bruxas. Seu pai era membro da Sociedade dos Bruxos , sua mãe era considerada uma grande bruxa e suas irmãs haviam-se formado com louvor como bruxas. Mas, Adélia, pobrezinha! Adélia era um desastre. Não conseguia fazer nada direito. Se era pra colocar uma cobra na receita, ela punha uma rosa, um espelho, no lugar de um morcego. E chorava desconsolada, porque a professora colocava-a de castigo diante das outras bruxinhas, dizendo:
- Se vocês não forem más o suficiente, serão como Adélia, que usa flores nas suas poções, sinal de bom coração.

Na verdade, Adélia não gostava muito de ser bruxa. Acontece que era tradição de família, todas as irmãs dela eram bruxas, e cada vez que ela se queixava, lá vinha aquele blá, blá, blá, sem fim . O pai apontava para o retrato de sua mãe (avó de Adélia) e dizia:
- Ela foi a maior bruxa de todos os tempos.
O olhar da avó no retrato já era tão terrível que fazia Adélia imaginar os mais terríveis castigos. E pra finalizar:
- Todo mundo nessa família é bruxo. Por que você tem que ser diferente?

É claro que isso era motivo de muita tristeza para o pai e a mãe de Adélia.
- Não entendo como isso pôde acontecer - lamentava o pai - Uma bruxinha tão feia.
- Pois se até um olho torto ela possui - acrescentava a mãe.
Na escola, porém, a professora havia perdido a paciência. Adélia havia trocado mais um ingrediente da lição e dissera as palavras mágicas erradas. Como resultado, o caldeirão explodiu. Passado o susto, a professora colocou Adélia de castigo e disse:
- Mesmo as bruxas precisam ter disciplina. E Adélia não tem. Dessa vez ela foi longe demais, poderia ter nos matado. Por isso, ela está expulsa da Escola dos Bruxos.
E mandou Adélia embora.

Adélia não teve coragem de voltar pra casa e, por isso, saiu andando pela floresta. Andou, andou. Até que chegou num lugar onde nunca tinha estado antes. Resolveu parar um pouquinho para descansar, e adormeceu.
Acordou com alguém chamando-a e viu um senhor vestido de branco.
- Quem é você?- perguntou Adélia.
- Eu sou o Dr. Marcos.
Aquilo assustou muito Adélia, pois aquele era um homem, e as bruxas sempre falavam mal dos homens. Lembrou-se que havia uma bruxaria para se defender dos homens. Como era mesmo? Invocar os maus espíritos e dizer uma palavra mágica. Ou seria o contrário?
Nesse momento, ela ficou ainda mais triste, porque viu que a professora tinha razão, ela não sabia nem se defender de um homem. E começou a chorar.
- Porque você está chorando?- perguntou o médico.
- Porque eu sou uma bruxa, mas não sei fazer nada direito. Sou tão desastrada que fui expulsa da Escola dos Bruxos.
- E o que você faz errado?
- Tudo. Eu troco todos ingredientes das poções, até as palavras mágicas eu digo errado.
- Deixe-me ver uma coisa - disse o Dr. Marcos, sentando-se no chão, pois era muito alto, e Adélia, muito pequenina - Quantos dedos têm aqui?- e estendeu a mão.
- Acho que são três, mas não tenho certeza. Eles são encantados.
- Por que são encantados?- perguntou o doutor.
- Porque se juntam e se separam. Tem hora que são três, tem hora que são quatro.
- Qual o seu nome, bruxinha?
- Adélia.
- Adélia, acho que posso ajudar você.


O Dr. Marcos levou Adélia a um oculista. Lá, ela descobriu que seu "olho torto", que era o orgulho da mãe, era um defeitinho, chamado estrabismo. Por isso, ela não conseguia ler direito e aprendia nada. Era preciso fazer uns exercícios especiais para o olho preguiçoso. Isso deixou Adélia muito feliz, mas...
- Como contar pra mamãe que tem um homem me ajudando?

Adélia pensou, pensou e resolveu: melhor não contar nada. Quando ela voltou para casa teve que enfrentar um problemão, que ela já havia até esquecido: a expulsão da escola. Ela olhou pro pai e estremeceu. A cara dele parecia uma nuvem de chuva, daquelas bem pretas, de tempestade, com muito raio e trovão.
Inventou que estava muito arrependida (isso era mentira, porque a culpa não era dela) e prometeu que ia aprender todos os feitiços para ser uma bruxa muito má (isso não era tão verdade). E assim, a professora permitiu que ela voltasse.
A mãe bem que desconfiou daquelas saídas constantes, mas Adélia dizia que tinha que praticar as lições. E ia para mais uma sessão de exercícios especiais.
- Parece que agora Adélia encontrou o mau caminho. - dizia a mãe, toda satisfeita, para o pai.

Adélia começou a ler melhor e a entender as lições, e a não gostar do que aprendia, exceto pelo mistério que representavam aquelas misturas. Como é que se misturava dois líquidos sem cor e ficava tudo azul? E começou a pensar.
"Eu pensava que não gostava de ser bruxa porque não aprendia. Agora que estou aprendendo, estou vendo que não gosto muito disso".
E resolveu conversar com alguém. E estava pensando, quando chegou ao consultório do oculista.
- Bem, Adélia - disse o médico - agora acabou. Você não precisa vir mais aqui.
- O senhor me ajudou muito - agradeceu Adélia - Além de consertar olho, o que mais o senhor faz?
- Os médicos salvam vidas, ou ajudam a torná-la melhor, como no seu caso.
- Como o Dr. Marcos fez.
- Exatamente. O Dr. Marcos gosta de ajudar as pessoas. Sempre quis ser médico.
- Deve ser bom fazer o que gosta. - disse Adélia, pensando nas aulas de bruxaria, que só ensinavam a fazer o mal.
- Mas não foi tão fácil assim. O pai dele era advogado e queria que ele também fosse.
- Meus pais também são assim, - disse Adélia, se animando- querem que eu siga a profissão da família.
- E você quer?
- Não gosto muito.
- Então pense direitinho e converse com eles. Vão ter que entender.
Adélia voltou para casa pensando. Pensar era o seu novo passatempo. E pensando, descobriu uma coisa: ela não queria ser bruxa. Queria descobrir o mistério das poções. Era isso que ela queria aprender.

Adélia chegou em casa na hora do jantar. Comeu em silêncio e esperou que todo mundo terminasse. Tomou coragem, enfrentou o olhar da avó, lá no retrato, e disse:
- Não quero ser bruxa.
Foi como uma bomba. O pai ameaçou-a com todos os feitiços, invocou o nome da avó. A mãe ficou vermelha de tanta raiva. As irmãs não paravam de falar. Calmamente, ela começou a explicar, e eles foram se calando para ouvir.
- Eu nunca quis ser bruxa. Mas gosto de fazer poções.
E o barulho recomeçou.

Não houve praga, nem feitiço, que mudasse Adélia. Ela ficou firme, apesar de todos os protestos. Hoje, ela é farmacêutica, continua fazendo poções, só que agora elas se chamam medicamentos.


(Por favor, não passe adiante sem autorização, nem se aproprie, se dizendo autor dessa história. Ela está registrada nos arquivos da Bilbioteca Nacional, e você não quer ser processado, ou quer?)

sábado, junho 19, 2010

Enjoada

Não gosto de fazer compras. Não gosto nem de dia de feira.
Detesto gente estranha na minha casa. Detesto gente conhecida que aparece sem avisar. Tenho horror a desconhecidos que batem na porta ou telefonam fora do horário comercial.
Não me agrada que se atrasem quando marcam comigo. Certamente fico aborrecida quando não cumprem o que me prometem e fico furiosa quando esperam me convencer que o errado é o certo.
Desconverso quando dizem como devo levar minha vida. Recuso conselhos que não pedi e adoro sugestões bem intencionadas. Há um abismo entre conselho e sugestão. Não quero que se metam na minha vida ou nas minhas preferências, embora goste de conhecer gente com gostos diferentes dos meus.
Aceito reprimenda, quando devida, escuto mesmo quando for indevida, dependendo do caso, mas não espere que eu permaneça muito próxima depois disso. Dá raiva ser criticada por algo que não fiz. Aliás, pouca gente me viu com raiva. Aborrecida é comum, com raiva uma exceção. Eu com raiva sou uma ameaça pública.
Em suma, eu sou uma pessoa chata e enjoada. Deve ser por isso que não tenho namorado, namorada, ficante, cachorro, gato, papagaio, plantas, muitos amigos ou emprego em que passe muito tempo. Nada que dure mais que dois verões.
Porque só eu me agüento e já é muito.

sábado, junho 12, 2010

Noite de Fogueira



Já passou das seis da noite, hora das simpatias. Quando eu era criança, buscavam a aliança de uma mulher casada pras moças saberem em quantos anos casariam. Seguravam a aliança num fio de cabelo sobre um copo com água e rezavam a Salve-Rainha, contando quantas vezes a aliança batia na borda do copo. O número de batidas era o número de anos que faltava pra pessoa casar. A aliança nunca bateu no copo quando eu fazia a simpatia. Ainda bem. Eu torcia que não batesse mesmo.

Noite de fogueira é noite de gente com asma nas emergências, gente bêbada e/ou queimada por fogos de artifício. Esse ano, a chance de queimadura aumenta por causa da Copa do mundo de futebol. Ainda bem que não trabalho mais em hospitais, mas sei que vai chegar alguém com queimadura pelo posto por esses dias.

Em noites assim, eu recomendo não lavar roupa. Fica tudo com cheiro de fumaça e você acaba tendo que lavar tudo novamente. A casa cheira a fumaça, quer você feche a janela ou não. Na minha rua não há fogueiras. Ainda assim, posso ouvir os fogos nesse momento.

Lembro-me de minha infância, quando seis horas era a hora de acender a fogueira, montada geralmente com lenha que eu havia providenciado semanas antes, podando as árvores do quintal. Nossa fogueira não era a maior da rua, mas era a que eu mais gostava. Quando finalmente havia brasas, eram transferidas com uma pá pra churrasqueira de casa, onde assávamos milho de um modo bem mais confortável.

Não soltávamos fogos, além de traques. Meu pai trabalhava, ainda trabalha, em emergências. Minha mãe foi auxiliar de enfermagem por dez anos. Não precisa dizer mais nada. Não sinto falta dos fogos de artifício que não soltei na minha infância. Se algum dia senti, essa ausência sumiu quando vi meu primeiro queimado. Há certas coisas na vida que é melhor passar sem. Pra dizer a verdade, não vejo graça nem em fogos no Ano-Novo, mas isso é opinião minha.

Noite de fogueira combina com canjica (e eu não comprei nem uma daquelas de caixa), de pamonha (que tem o ano inteiro aqui) e milho verde cozido. Lembro-me do ano em que meu irmão foi encarregado de trazer uma dúzia de espigas do supermercado e recebeu as instruções pra identificar uma boa espiga: não faltar grãos na fileira, não ter bichos, a ponta não podia estar podre, não ter muito cabelo. Estava anoitecendo, todo mundo maluco porque ele não voltava e o mercado não era longe, quando finalmente meu irmão chega. Com as mais perfeitas espigas de milho que devo ter visto em minha vida. Como eu, ele sempre foi de seguir instruções à risca. Talvez por isso, a gente não se dê tão bem na vida.

Em noites assim, as pessoas vão pra festas, pra casa de outras pessoas. Eu fico em casa. Esse ano, minha companhia é um cesto de roupa pra passar. Adoraria estar mexendo uma panela de canjica (da verdadeira), porque adoro tanto canjica que não me importo de mexer por horas a fio. Não sei por que não comprei canjica. Deve ser porque não estou fazendo questão de nada: canjica, festa, fogueira ou da TV que ainda não voltou do conserto.

De qualquer modo, feliz Dia dos Namorados, véspera de Santo Antônio.

domingo, junho 06, 2010

Enquanto isso...

Com essa história de mudança, ou por causa da carga de trabalho no emprego, ou porque alguma coisa saiu dos eixos, eu não ando tão produtiva quanto gostaria. Escrever tem sido complicado. Antes, eu tinha pilhas de textos pra registrar e o tempo não dava, agora, eu não tenho o que escrever, exceto sobre a mudança. Eu acho chato escrever sobre um único assunto, me parece repetitivo, isso sim. Ficar descrevendo nos mínimos detalhes, cada gesto, é tarefa pra um escritor do nível de Dostoiévski, Kafka, não euzinha. Ainda assim, saiu isso hoje, em vinte minutos:

Mudança

Se alguém perguntasse a ela como havia passado aqueles dias, ela não saberia responder. Sabia apenas que seu corpo e mente vagavam de um lado pro outro, se esforçando por fazer alguma coisa, qualquer coisa. Provavelmente, ela se apegava à rotina já conhecida, ao que já dera certo das outras vezes. Se manter ocupada ajudava, era o que havia aprendido em tempos passados. Então, ela se mantinha ocupada.

Não executava as tarefas com método, como lhe era habitual. Começava e parava, iniciava outra coisa, seguia pra uma terceira, voltava pra primeira, mas de algum modo, o trabalho prosseguia. Pra onde quer que se olhasse, havia ordem e caos. Caixas de objetos perfeitamente embalados e etiquetados, uma porção de coisas soltas pelos cantos, sem ordem aparente. Inúmeros objetos fundamentais já embrulhados e os supérfluos ainda nas prateleiras, a maioria já limpa da poeira, à espera da boa vontade dela pra embalá-los.

Uma pilha assustadora de roupa pra passar. Ainda mais assustadora se considerando que ela havia passado roupa por quase toda a vida, bem e rapidamente. Mais impressionante era a quantidade de lixo que se acumulava pra ser colocado fora, e era apenas o lixo dos dois últimos dias. Desde que ela havia iniciado aquilo, tinha a impressão que metade do que havia dentro dos moveis havia ido pro lixo, e ainda havia duas caixas enormes de objetos pra doação.

Ela adiava a confrontação com a papelada e os livros. Era o teste final do balanço que estava fazendo de sua própria existência. Sabia que, ao começar, ia se deparar com o que já sabia: não havia nada ali que dissesse o que ela havia feito por toda a vida. Ela acumulava informações que quase nunca consultava sobre uma profissão que ainda não sabia como ou por que havia escolhido. Lia e relia histórias sobre mundos imaginários, histórias baseadas em locais ou pessoas reais, novelizações de filmes e séries de TV, romances médicos, aventuras em terras longínquas e contos sobre mulheres perdidas e insatisfeitas com a própria existência ou com suas ações. Não lia biografias. Tinha alguns livros sobre jornalismo, mas não queria os fatos reais da vida. Preferia a reinterpretação dos fatos, a idealização das situações, a sátira do real, a vida imaginária.

Tudo lhe parecia melhor que a vida real. Talvez por isso, ela estivesse se desfazendo de tanta coisa, mas continuasse se apegando às revistas em quadrinhos, aos romances, aos filmes, às séries de TV, às imagens das flores, das telas e das fotografias que mantinha em seu HD. Aliás, seria mais difícil de excluir algo de seu HD do que de sua casa. Porque o virtual havia se tornado, enfim, mais real do que a própria vida ‘real’.





'After the thrill is gone', by Jack Vettriano.

sábado, maio 22, 2010

Tudo que é bom acaba

22.05.10

Então a Oficina de Crônicas acabou. Foi, sem favor algum, o que me segurou nas semanas mais pesadas dos últimos meses. Mas, acabou. Tudo que é bom acaba. A frase lembra um refrão do Roberto: ‘será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?’. Tudo que é bom tem que ter limite, tudo que é gostoso tem que ser controlado, tudo tem que ter um fim. O que importa é o que fica, a lembrança dessa coisa boa, o tempo enquanto durou. Foi assim com a Oficina.

Nos últimos dois meses e meio, a quantidade de trabalho praticamente dobrou em meu serviço, sem nenhuma razão aparente. Ainda assim, eu ia e voltava pensando na crônica da semana, por escrever, e nas crônicas das outras, da semana anterior. Pensando nos comentários das professoras para cada uma das autoras. Antes da Oficina de Crônicas, eu pensava em minhas histórias. Engraçado, desde que isso começou, meus personagens se queixam e exigem de volta o espaço que ocupavam. Agora que não tem mais Oficina, eles não reapareceram pra continuar as histórias. No mínimo, estão aborrecidos comigo, como crianças birrentas. Olha ali, não falei? Acaba de aparecer um, com uma tromba maior que a do elefante, dizendo que não é tão criança assim. Detalhe: ele tem seis anos. Tá bom, quase sete. Satisfeito? Me deixa voltar a escrever, querido. Só mais quinze minutos e eu sou toda sua.

Quem lê isso deve pensar que sou louca. Não sou. Tenho atestado médico e tudo, provando que não sou louca. Só tenho uns parafusos soltos, mas a maioria das pessoas têm, então tudo bem. Enquanto eu souber o que é realidade e o que é fantasia, tudo fica legal. Eu só bato papo com meu inconsciente enquanto estou acordada. A maioria das pessoas faz isso dormindo, através de sonhos. Eu raramente sonho. Pra quê? Sonhos são um modo do inconsciente entrar em contato com nossa consciência. Eu já faço isso durante o dia, a noite me pertence pra dormir. Quer dizer, metade da noite é pra dormir, a outra metade é pra escrever. O interessante é que eu nunca, nunca sonho com meus personagens. Eles ocupam boa parte de minha vida e minha casa, a ponto de eu ter que pensar neles quando vou me mudar.

Mais essa agora. Essa semana, olho pra pia da cozinha e percebo que ela está afastada da parede. O chão também. Conclusão: o chão está afundando e eu tenho que me mudar da casa que adoro. Toca a procurar casa numa cidade onde ninguém coloca placa de ‘aluga-se’. Você tem que conhecer alguém que quer alugar uma casa, ser indicado. Passei a manhã de hoje com a dona de várias casas, que teve a maior boa vontade possível pra me encontrar um lugar, não muito caro, e dentro das minhas exigências. Tem que ser grande porque eu tenho muitos livros e filmes, não pode ser casa conjugada, não quero apartamento, tem que ser num ponto sossegado. Ela conseguiu. Uma gracinha de casa, quase pronta. Estão terminando de colocar a cerâmica e só falta pintar. Exatamente o tempo de embalar tudo e arrumar essa daqui pra devolver.

O problema é espaço. Eu medi, medi, calculei, e concluí que na minúscula cozinha não caberá nem um dos armários, só o fogão e a geladeira. Quem cozinha assim? Sem falar no pessoal todo daqui, que não ocupa espaço físico, mas precisa ficar batendo papo comigo, enquanto lavo louça, faço faxina, e coloco a roupa lavada pra secar. Vão ficar onde? Em cima da geladeira? Tive que dizer ‘não’, com muita pena. Como também é com pena que estou saindo do lugar onde moro, mas tem que ser. Tudo que é bom acaba, e meu tempo nessa casa acabou, como acabou a Oficina, como acabou essa crônica também.


Exit Eden, by Jack Vettriano.

terça-feira, maio 18, 2010

Última crônica da Oficina

‘Eu escrevo porque emagrece’

07.05.10

De vez em quando, alguém me pergunta por que eu escrevo. Uma boa resposta já foi: ‘Eu quero entender o mundo. Eu quero me entender. Pra continuar numa profissão, tive que acrescentar outra de forma permanente em minha vida. Sempre, sempre, sempre que eu atraso o trabalho de escrita, todo o resto se desorganiza de forma pavorosa. Portanto, eu escrevo porque isso me mantém, literalmente, viva’, mas é uma explicação muito longa pra maioria das pessoas. A justificativa mais romântica é: ‘Você já amou alguém sem ser correspondido? E continuou amando mesmo sabendo que o amor era impossível? Pois é: eu amo escrever. Não me importa se alguém um dia vai ler’.

Pra ser sincera, não conheço muita gente que escreve como eu: todo dia. Comecei escrevendo pra colocar pra fora o que me incomoda, como se falasse sozinha, em voz alta, mas hoje é bem mais que isso. O que eu gosto mesmo é de contar histórias pra mim mesma, como faz Stephen King. Leio e releio minhas histórias, curto meus personagens. As pessoas perguntam se eu não me sinto só e eu acho estranho. Como eu posso estar só, cercada de ‘gente’ compartilhando suas vidas comigo? Assim como tenho livros prediletos, tenho minhas histórias prediletas e adoro as aventuras da minha turma. Os bons escritores dizem que a gente deve escrever pra si mesmo, não pro leitor e eu aprendi isso na prática. A gente sempre se censura quando escreve pra alguém. Sou da turma de Salinger, que disse "Amo escrever, mas, só escrevo para mim mesmo e para o meu prazer".

Foi escrevendo que percebi que precisava estudar mais sobre o assunto, mas minha formação não me ajudava a encontrar material sobre o assunto. Exceto livros sobre técnicas de redação, só encontrei um livro que reorganizou minha forma de escrever: 'A chave do reino interior'. Foi quando soube que uso Imaginação Ativa pra escrever. Sempre usei, só não sabia disso. Aparentemente, também uso Imaginação Criativa, mas preciso estudar mais sobre isso pra ter certeza. Preciso conversar com outras pessoas sobre processo de escrita e isso é muito difícil de encontrar. Pra isso, é preciso partilhar o que escrevo e não me senti à vontade com a maioria das reações que tive. As pessoas me viam como alguém muito superior a elas, inteligente demais, culta demais, como se não fossem capazes de fazer o mesmo, por mais que se esforçassem, ou liam meus textos por simples consideração. E, convenhamos: ‘Isso está muito bom’ ou ‘você escreve muito bem’ não acrescenta em nada à minha técnica.

Até que, certo dia, um de meus personagens foi muito direto comigo: 'Odessa, já lhe ocorreu que você está falando com o público errado?'. É, o personagem disse isso e eu comecei a prestar atenção ao que eles dizem. A sugestão de outro foi tentar escrever histórias curtas. Foi assim que eu acabei na Oficina de Crônicas. Quando me inscrevi, calculei quanto valia escrever cada texto. Não é tão barato assim, mas eu não sabia que teria acesso ao trabalho de outras pessoas e isso valeu a pena. Numa crônica sobre vícios, a autora descreveu minha relação com a escrita: eu reconheço o vício de escrever e tento me controlar, mas não posso viver sem. Noutra crônica, outra autora me instigou a continuar. Com ou sem medo, mas continuar. Sempre. Esse texto, e o curso, foram tão importantes pra mim, que comecei a questionar minha eterna resistência em compartilhar meus escritos. Continuo repetindo que o que escrevo ainda não está pronto pro público, ou eu não estou pronta pra ele. Acho que estou certa. Imaginei que no curso eu conseguiria trocar idéias com outras escritoras, mas o diálogo sobre a produção foi mínimo, exceto pelos comentários das coordenadoras. Fiquei sem saber que impressão meus textos dão pras outras leitoras. Nesse ponto, o curso foi uma decepção total.

Ainda assim, é bom escrever sobre um assunto especifico, de vez em quando. Sem dúvida, a lição mais difícil a assimilar foi controlar o tamanho do texto. Como sou prolixa, tive que cortar, cortar e reescrever. Na maioria das vezes, deu mais trabalho editar do que escrever. Além disso, estou revisando o que já escrevi. É virtualmente impossível revisar tudo, porque estou sempre escrevendo mais. No entanto, algumas histórias merecem essa atenção e espero conseguir terminar o que pretendo. Tudo isso vem acontecendo nos dois meses mais difíceis que já tive no meu emprego atual. O trabalho praticamente dobrou, e eu poderia ter desistido das crônicas, mas como eu já disse, é parar de escrever é minha vida fica uma confusão. Entendi que até a faxina pode esperar, a escrita não.

Escrever pra mim tem muitas funções: registrar o que está acontecendo comigo, coordenar o raciocínio, tornar compreensível um ponto de vista, saber o que realmente penso sobre um assunto, extravasar minha frustração e, muito de vez em quando, dissertar sobre algum tema em particular. Escrevia poesia, mas tem uns dois anos que não me vêm nada e eu não sinto falta desse tipo de literatura. Também escrevo sobre algo que tenha chamado minha atenção no dia a dia, mas não sou comentarista profissional. Não sou crítica de cinema, de teatro, de literatura ou jornalismo. Sou uma contadora de histórias, reais ou não. Ainda não encontrei o meu público, nem estou procurando-o. Percebi que quanto mais escrevo, mais guardo minhas opiniões pra mim mesma. Falo menos e penso mais. E o mais interessante: toda vez que eu adio trabalho de escrita, eu engordo.

Portanto, o maior benefício que escrever regularmente me trouxe foi recuperar minha antiga forma. Perdi 33 quilos em pouco mais de dois anos, exatamente quando comecei a escrever sem parar. Se eu imprimir tudo que escrevi nesse período, devem dar os mesmos 33 quilos. Foi por isso que o título ‘Terapia da Palavra’ me atraiu tanto. Escrever pra mim é terapia. Explico isso quando digo aos outros que o curso valeu cada centavo investido, mas no dia a dia, quando alguém me pergunta por que eu escrevo, minha resposta mais simples é ‘Eu escrevo porque emagrece’.

domingo, maio 09, 2010

Quem me dera ser amada assim.

DECÁLOGO DO POETA PARA A MULHER AMADA

Vinícius de Moraes

"1 - Amar a mulher amada sobre todas as coisas.
2 - Não tomar o seu santo nome em vão,
e não brincar em serviço.
3 - Guardar todos os domingos para ela
e fazer-lhes milhões de festas.
4 - Ser um pouco pai dela e ela um pouco a mãe da gente.
5 - Só matá-la de amor, ou por amor.
6 - Pecar o mais possível contra a sua castidade.
7 - Nunca furtar para dar-lhe coisas.
Furtar é um crime vil
e a mulher que ama precisa respeitar o seu homem.
8 - Ser absolutamente discreto em tudo
que se relacione à mulher em geral.
9 - Fazer toda a força possível para não desejar
a mulher do próximo.
O preço do amor é uma eterna vigilância.
10 - Não cobiçar as coisas alheias,
pois à mulher que ama, basta-lhe o amor do ser amado
".

***
Acho que toda mulher já desejou ter sido merecedora da atenção de Vinícius. Se existiu um homem capaz de fazer da sensualidade um arte, esse foi o poetinha. Nao estou fala.ndo de lubricidade. Falo de dispor de todos os sentidos pra dar toda a atenção possível à mulher em questão naquele instante em que ele estava com a escolhida. Eu não fujo à regra. Foi assim que saiu a crônica dessa semana:

Vinícius e eu
29.04.10
Preciso confessar: Vinícius é o único relacionamento aberto que eu tive e tenho, e continua valendo a pena. Acho que é ele o tal homem da minha vida. A verdade é que temos um longo caso de amor. Nos conhecemos no ‘Livro de Sonetos’, na minha infância. Não sei como os sonetos me caíram nas mãos, mas eu não era tão criança assim e provavelmente não entendi os poemas mais quentes mesmo. Ficaram-me os sonetos de fidelidade, de separação, de intimidade, de contrição e ficamos flertando por anos, eu lendo e relendo o livro, que pertencia à minha mãe, até que uma ‘antologia poética’ me caiu nas mãos por inteiro acaso, na casa de alguém. Eu tive a antologia em mãos por uma noite apenas, porque o dono estava lendo e ia viajar com o livro. Mal dormi, e valeu cada instante porque Vinícius é um homem que mantém uma mulher acordada, mas ocupada e satisfeita. No dia seguinte, tivemos que nos despedir.
Apenas uma noite. Eu me senti roubada. Eu o queria de volta, pra dias e noites, e a eternidade, mas por alguma razão, nos desencontrávamos. Outros surgiram em minha vida, e me distraíram do meu primeiro amor. Eu soube que Vinícius era especial desde que ele me fez rir com ‘Não comerei da alface a verde pétala’. Independente de qualquer coisa, um homem tem que ser capaz de fazer rir uma mulher.

Aqui e ali, ele reaparecia em minha vida, me oferecendo mais: no repertório do coral da faculdade, numa edição comemorativa da ‘Veja’, nas primeiras palavras que meu primeiro namorado disse ao trocarmos nosso primeiro beijo. Os anos se passaram, eu me apaixonei, me decepcionei, me enganei, e o poeta ali, firme, à minha espera. Foi preciso tempo, mas eu entendi que o que tínhamos era muito especial e eu precisava dar o passo seguinte, conhecê-lo melhor e ele a mim, saber o que nos atraía, o que nos era comum e o que não era.

Quando resolvi dar uma chance, Vinícius não estava mais disponível. Eu não morava mais com minha mãe, e morria de saudades do livro de sonetos. Pedir emprestado não servia, eu o queria inteiramente pra mim porque livro de poesia tem que ser sublinhado, de leve, com lápis grafite, pro próximo dono poder apagar e sublinhar as frases dele. Se possível, a gente até data a poesia, pra saber por que gostou tanto daquilo. Livro de poesia emprestado é como suspirar pelo namorado da amiga: ou você rouba de uma vez, ou fica sofrendo por ele, até ter o seu. Nunca roubei o namorado de ninguém, como poderia roubar Vinícius de outra pessoa?

O interessante, é que nunca comprei um livro de Vinícius. Entendi desde o início que tinha que merecê-lo. A oportunidade veio na forma de uma dor de dente. Acabei na sala de cirurgia, extraindo os quatro dentes do siso de uma vez, e foi quando uma amiga veio me visitar, com outra ‘Antologia Poética’ pra ocupar meu tempo de repouso. Até a dedicatória era a de alguém que sabia o valor daquilo pra mim. Vinícius era finalmente meu!

Mal a amiga saiu, nós nos agarramos. Literalmente. Jantamos juntos e quando o dia seguinte amanheceu, ele continuava em meus braços. Essa antologia não tem ‘Quatro elementos’, um dos meus prediletos, mas afinal, não existe amor sem um defeitinho. Quando matamos as saudades de uma vida inteira, coloquei um marcador na página de ‘Receita de mulher’ e pedi tempo a Vinícius, pra entender o que se passava. Era muito intenso. Ele entendeu. O poetinha passou a dividir a prateleira com Bruna Lombardi, e mais tarde, com Mário Quintana e Fernando Pessoa. Sem ressentimentos. De fato, ele nunca foi possessivo. Me deixa livre pra escolher, e eu sempre volto pra ele, mesmo sabendo que terei que dividi-lo com outras. Ainda assim, é impossível pra mim ler apenas um soneto dele. Eu acabo folheando o livro à procura de outros. No entanto, não fui à procura do resto da obra dele. Seria assumir de vez nossa relação e eu fiquei esperando que ele tomasse uma atitude a esse respeito.

No início da semana, soube que Vinícius está na internet. A reportagem com a notícia nem havia terminado, e eu já estava à procura de uma poesia que li há mais de 25 anos e ainda não reencontrei. Essa é uma boa desculpa pra eu passar horas na frente da tela, lendo Vinícius. É a desculpa perfeita, na verdade. Porque nos últimos anos, um tal de Shakespeare anda se metendo entre nós, e já conseguiu espaço na prateleira. Já existem mais marcadores nos sonetos dele do que na antologia de Vinícius. Pela primeira vez, eu vi o poetinha aborrecido. Ele vem me lembrando que, aconteça o que acontecer, ele será o primeiro em minha vida, o mais fiel e, se eu permitir, estará sempre comigo, não importa quantas vezes eu me encante por mais alguém. Acho que foi por isso que ele resolveu se apresentar em 15 diferentes obras de uma vez, e ainda fez o favor de aparecer na crônica da semana. Está jogando pesado, e com razão.

É hora de reconhecer: nunca seremos simplesmente ‘Vinícius e eu’. Serei sempre uma das mulheres do poeta, me sentindo muito realizada por isso, porque qualquer mulher, qualquer uma, se sente linda e desejável ao ler Vinícius. O homem nos ensina a ser bonita, mesmo se na gente não tem o que se olhar. Ele não apenas cozinha, mas faz da preparação da feijoada uma poesia. Sim, ele bebe e é namorador como ninguém, mas ama a todas sem qualquer distinção. Ele aceita que eu tenha outros amores, e me apóia quando um deles acaba. Tudo que ele pede em troca é minha atenção exclusiva quando estamos juntos, porque ele faz o mesmo por mim. É pra esse instante que vivo, porque quando estou com Vinícius somos somente nós e tudo é possível

quarta-feira, maio 05, 2010

Definindo o que é o bastante

19.03.10
Há uma máxima do Tao que diz que ‘quando sabemos o que é o bastante, sempre haverá o bastante’. Não importa em que área de sua vida você aplica esse princípio. É sempre importante definir uma meta pra evitar a insatisfação comum à maioria das pessoas. Nem sempre é fácil explicar esse princípio, como nem sempre é fácil explicar muita coisa na vida. A chave está em saber segurar a atenção da outra pessoa seja como for. Conseguir, e manter, a atenção de alguém é um dom.

Alguns textos capturam nossa atenção. Muitas vezes, o tema abordado nem é tão importante, mas o modo como o autor apresenta a idéia nos prende de tal modo que a gente não consegue parar de ler. Aconteceu comigo essa semana, em ‘O que faz valer a pena’, de João Paulo Cuenca, uma crônica sobre os instantes que dão sentido e fazem a vida ser uma experiência válida. Eu não conhecia Cuenca, mas graças ao Google, encontrei o ‘Blog de Anotações’ e li mais textos dele. Não conheço metade ou mais dos exemplos citados por ele como momentos que fazem a vida valer a pena. Não importa. O que ele cita pode ser facilmente substituído pelo que eu ou você consideramos como elementos que dão colorido à história de nossas vidas. O que interessa é o modo como o autor defende cada item na imensa lista que ele descreve. Se eu conhecesse a maioria dos momentos e pessoas citadas, provavelmente concordaria com Cuenca, mas ele me ganhou nas primeiras linhas quando citou ‘o Didi Mocó nos anos 80 vestido de Maria Betânia cantando Teresinha do Chico Buarque.' Embora eu não imagine cena melhor pra descrever o trabalho de Renato Aragão (aquela é uma das cenas que fez minha infância digna de ser vivida), certamente toda pessoa tem alguma cena inesquecível pra colocar como substituto à altura.

A lista torna-se excepcional quando Cuenca começa a falar das mulheres. De repente, a gente acha que está relendo ‘Receita de Mulher’, do Vinícius, ou alguma poesia de Bruna Lombardi. Quando você termina, ou a) a gente se sente o máximo por ser mulher, embora não esteja entre as citadas, ou b) dá vontade de ser homem. Note que o autor não está fazendo uma apologia da mulher, ou defendendo que ser heterossexual é o máximo. Não. Ele reconhece nas mulheres, ou em certas representantes do gênero, um dos motivos pra gente continuar investindo na vida. Lendo outras crônicas de Cuenca, a gente percebe que as mulheres são um tema recorrente nos textos dele, o que confirma o motivo de ocuparem mais ou menos metade da lista (e da crônica).

Ao longo dos anos, meu entusiasmo pela vida cedeu, e muito. Já não me anima tanto a perspectiva de ver um filme novo, e a visão de um livro desconhecido já não me deixa ansiosa pra saber o que está escrito em suas páginas. Em parte, isso se dá porque eu já vivi o bastante pra ter minha própria lista de momentos que valem a pena, e muitas vezes prefiro revivê-los a me arriscar perdendo tempo com uma novidade que pode ou não ter seu mérito. Muitos desses momentos são cenas de filmes (ou filmes inteiros), trechos de livros e poesias, e provavelmente minha lista tem mais livros que músicas, mais filmes que cenas de minha própria vida. O essencial é que cada um desses momentos existiu porque alguém o partilhou comigo. Mesmo o passeio solitário num fim de tarde valeu a pena porque eu me permiti apreciá-lo.

A crônica de Cuenca se destaca porque ele dá seu ponto de vista, mas não tenta me convencer que o que ele diz é o certo. Ele não fica citando a opinião alheia, não se esconde atrás do nome de outro autor pra justificar o fato de gostar de A ou B. Ele gosta de Woody Allen e pronto. Ele não quer saber se você leu Nabokov. Pra ele, o primeiro parágrafo de Lolita é o que é. Ele está se lixando se eu sei quem é Keith Jarrett, se já vi algum filme de Fellini, se estive no Orsay ou no Prado, ou se concordo com minha professora de Literatura do 2º grau, que achava que Roberto Carlos é lugar-comum. Não importa. Ele definiu pra si o que é o bastante, e o único critério é se faz valer a pena. E isso basta.

***

Estou começando a curtir as crônicas, mesmo com o espaço reduzido pra escrever. Quem sabe eu não aprendo a ser menos prolixa?